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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

A cartografia do corpo

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                 Era uma mulher que reconstruiu a cartografia do seu corpo. Seguia com o namorado pelas ruas da selva de pedra. Uma princesa diferente, com o seu príncipe também diferente, sem o cavalo branco. Os dois seguem sem medo, a vida transcorre como um rio de água mansa, em leito sereno: mãos entrelaçadas, abraços e beijos que transformam o mundo num lugar de proteção e afeto.             Imagine o conflito de olhar e não se enxergar. Perguntar para si mesma de quem é este reflexo que aparece no espelho? A silhueta da face, do pescoço, os braços, o aparelho genital, as pernas, os peitos. Cada detalhe do corpo é algo enigmático, guarda uma função e ao mesmo tempo não serve para nada. Tenta-se piscar os olhos, e, como num passe de mágica, a mudança ocorreria. Não, não acontece, é real, esse corpo não lhe pertence.       ...

Rosa ou rosa choque, eis a questão!

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                 Na canção  Cor de Rosa Choque , Rita Lee avisa, quase como quem deixa um bilhete na porta:  “sexo frágil não foge à luta, e nem só de cama vive a mulher” . Não basta ser rosa —  suave,  dócil, mistura comportada de vermelho com branco. É preciso ser choque: intenso, elétrico, uma cor  vibrante  que não pede licença ao olhar.   Assistindo hoje à minissérie sobre Ângela Diniz, esse rosa ganha  contornos mais fortes . Um vermelho mais aceso, contaminado por azul e roxo — cores de quem vive em curto-circuito com o mundo. Ângela era assim: inquieta, incômoda, uma mulher que não cabia no tom pastel reservado às mulheres de sua época.   Em 1976, eu tinha treze anos e uma inocência intacta. Sonhava com o menino mais bonito da escola, com galãs de novela, com beijos que só existiam no cinema. Enquanto isso, a televisão  exauria  a notícia do assassinato de Ângela Diniz e, dep...