domingo, 22 de fevereiro de 2026

Mulheres 60+: obsoleta é a sua ideia de perfeição

   

As mulheres a partir de 60 anos reinventaram a nova forma de viver a maturidade. Elas se divertem, brindam à própria vida, assumem papéis inusitados, tais como DJs do rock ao bolero, treinam nas academias de ginástica. A jovem senhora, durante a aula de hidro, ainda canta com uma voz incrível que representa lembrança e história de tempos idos. Inclusive, nessas aulas, já combinam a programação da “balada” do final de semana. As amigas dores no joelho, no quadril e na coluna, quando aparecem, mesmo sem convite, não as impedem da diversão.

Cadê o infravermelho? Ele esquenta não somente o músculo, mas as conversas. Aquela faixa amarela? Elas servem também como faixa de Miss, na ala das bengalas, organizada pelos fisioterapeutas. O despertador tocou, já terminou, chega por hoje. Fisioterapeutas recebem bolos, chocolates e confidências. Não, agora tem a aula de dança na academia. O corpo pode reclamar, mas movimento é a palavra de ordem.

Com ou sem a presença das outras amigas, Injeção, Botox e Silicone, a Maturidade vai à luta, brinca com o passar do tempo e se joga. Quem quiser que procure a mulher da Inteligência Artificial, aquela que não envelhece, não falha, não esquece. Obedece, não discute. Responde em segundos. Companhia sob medida, atenção ininterrupta, nenhuma contradição.

Entretanto, há um detalhe: as máquinas precisam ser reinicializadas quando surge uma nova versão. Caso não tenham componentes compatíveis, se algo falhar, serão deletadas, descartadas e substituídas. As mulheres 60+ sabem que viver é aceitar risco, sentir dor, dançar com limitações, cantar, mesmo quando a voz começa a falhar. Não foram feitas para reiniciar, e sim para seguir em frente.

As mulheres do mundo real, não editáveis e sem filtro, fazem um planejamento de viagem como quem planeja uma fuga feliz. Qual a próxima escala? América do Sul? Nordeste do Brasil? Ou tomar um café na Serra, visitar uma feirinha e almoçar num restaurante de comida típica. Conhecer uma nova dança do Norte do Brasil, talvez, aulas em vários lugares, horários flexíveis e preços acessíveis, pois todo mundo agora é aposentado.

  Cuidado com o desejo de juventude e perfeição permanentes. Nos filmes sobre Inteligência Artificial, há sempre um instante em que a criação ultrapassa o criador. As máquinas são frias e calculistas, guiadas pela sequência de números binários e algoritmos, com instruções lógicas e ordenadas. Fracassar, errar e envelhecer são características eminentemente humanas, e isso justamente dá sentido ao viver. Mulheres maduras são perfeitas nas suas imperfeições e insubstituíveis. O que incomoda mais: o passar do tempo ou admitir a fragilidade diante de uma mulher fora do algoritmo?


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Nossa melhor persona, o carnaval!

 


O carnaval é como se fosse um portal que se abre uma vez por ano para que a travessia seja um encontro com suas diversas personas. Lojas vendendo as fantasias e cada um escolhendo viver seu melhor personagem. A diferença entre as classes sociais se dilui, todo mundo canta e dança coletivamente, atrás de suas máscaras. Lugares enfeitados, bandas tocam marchinhas antigas, grupos fantasiados confraternizam e desfilam pelas ruas embalando coreografias e assustando as criancinhas.

Um campeonato é filmado e divulgado pelos canais de televisão, preparados para levar o espetáculo do desfile aos lugares mais longínquos. Não, não é o futebol. São as escolas de samba, que desenvolvem seus enredos, como se fossem uma obra de arte pintada num quadro ganhando contornos de 3D. Nesse quadro a céu aberto, um mundo se abre por meio da representação de fatos históricos que recebem uma dose de um novo final.

Figuras esquecidas, pouco valorizadas, desconhecidas, de repente criam alma e corpo. Elas ocupam seus lugares na roda da vida, descobrimos um pouco do que a história esqueceu de nos contar. Nunca é tarde para contemplarmos a beleza do brilho daquela estrela que parecia pequena e distante. Atravessando a avenida, o samba penetra no coração de cada componente, os passos, o balançar dos braços, soam uma composição de união entre o agora e o eterno.

Quem não estava desfilando ou assistindo nas arquibancadas e camarotes, estava acompanhando de casa. Muitas pessoas organizavam um evento, com churrasco, bebidas, rodas de samba, conversa. A televisão segue ligada à noite toda. Ninguém deseja perder o momento do desfile de sua agremiação. Eram nomeados organizadores, presidente, patrono, rainha de bateria, tudo cronometrado e submetido à avaliação de uma equipe julgadora.

Nesses dias, não tínhamos horários para fazer nada, tudo corria conforme a energia e vontade de viver intensamente. Parecia que a escolha era paranão ver além das máscaras. Deixar-se levar pelo brilho, o balançar das penas, o colorido de plumas e paetês, indo num encontro de algo que não importa o que seja, apenas ir, sem destino.

Mas, na terça-feira, meia-noite, tudo acaba, necessário atravessar o portal e voltar. Fantasias esquecidas nas esquinas, encostadas nos postes, adereços espalhados pelas ruas, algumas pessoas caídas no chão, adormecidas, tristes, chorosas. Acabou, na quarta-feira, a partir do meio-dia, a rotina de todo dia. Tudo normal.

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A cartografia do corpo

    







            Era uma mulher que reconstruiu a cartografia do seu corpo. Seguia com o namorado pelas ruas da selva de pedra. Uma princesa diferente, com o seu príncipe também diferente, sem o cavalo branco. Os dois seguem sem medo, a vida transcorre como um rio de água mansa, em leito sereno: mãos entrelaçadas, abraços e beijos que transformam o mundo num lugar de proteção e afeto.

            Imagine o conflito de olhar e não se enxergar. Perguntar para si mesma de quem é este reflexo que aparece no espelho? A silhueta da face, do pescoço, os braços, o aparelho genital, as pernas, os peitos. Cada detalhe do corpo é algo enigmático, guarda uma função e ao mesmo tempo não serve para nada. Tenta-se piscar os olhos, e, como num passe de mágica, a mudança ocorreria. Não, não acontece, é real, esse corpo não lhe pertence.

            O seu príncipe entende esse desejo, pois ele também deseja essa mulher, sabe que a mudança está em curso. Foi por essa mulher, desse jeito, que luta pelo que pode mudar, que o atraiu. Seu jeito de ser, a ternura, a determinação, a beleza de ser mais do que um corpo em transformação, uma mulher que desnuda com um olhar. Quando não podemos nos expressar só com o corpo, parece que o olhar tem um papel ainda mais poderoso de seduzir. Esse homem acolhe essa mulher, juntos vivem essa descoberta, estão unidos para desbravar esse caminho de reconstrução. Isso é paixão, pode ser amor também, será.

            Nem sempre foi assim. Quando é que percebemos se somos homem ou mulher? Qual seria nossa orientação sexual? O corpo representa nossa identidade. Ao olharmos no espelho, não queremos ver nossa celulite, mas enxergamos o masculino ou feminino. Esse olhar de identificação para a mulher trans tem um significado especial, é o seu direito de existir, sua redesignação sexual, seu território de encontro com o espírito de estar no mundo.

            A mãe desse filho que se transforma em filha enfrenta um turbilhão de batalhas silenciosas. O mundo não lhe deu ferramentas para enfrentar esse enredo. Desde cedo percebia que seu menino não cabia no “molde” sonhado: não gostava do azul, não corria atrás de bola, não empurrava carrinho pelo chão. O mundo é um lugar áspero, capaz de ferir com palavras e pedras invisíveis.

            Ainda assim, amar é escolher apoiar. Entre quedas e resistências, aprende-se que proteger não é impedir a travessia. O sofrimento já existe, devemos amortecer os golpes que a vida traz, a mãe está com suas mãos firmes e coração aberto para que sua agora filha possa renascer inteira e feliz.

            Não temos controle sobre tudo, mas temos a capacidade de entender e aceitar que todas as pessoas possam ser felizes de acordo com suas escolhas. Redesignação é isso, pelo direito de existir.

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Rosa ou rosa choque, eis a questão!


             Na canção Cor de Rosa Choque, Rita Lee avisa, quase como quem deixa um bilhete na porta: “sexo frágil não foge à luta, e nem só de cama vive a mulher”. Não basta ser rosa — suave, dócil, mistura comportada de vermelho com branco. É preciso ser choque: intenso, elétrico, uma cor vibrante que não pede licença ao olhar. 

Assistindo hoje à minissérie sobre Ângela Diniz, esse rosa ganha contornos mais fortes. Um vermelho mais aceso, contaminado por azul e roxo — cores de quem vive em curto-circuito com o mundo. Ângela era assim: inquieta, incômoda, uma mulher que não cabia no tom pastel reservado às mulheres de sua época. 

Em 1976, eu tinha treze anos e uma inocência intacta. Sonhava com o menino mais bonito da escola, com galãs de novela, com beijos que só existiam no cinema. Enquanto isso, a televisão exauria a notícia do assassinato de Ângela Diniz e, depois, o julgamento de Doca Street. Em casa, minha mãe, tias e avó — mulheres acostumadas a suportar violências masculinas, criavam os filhos, administravam a casa, conviviam com homens por vezes violentos. Não comentavam. O silêncio também era uma forma de sobrevivência. 

Cinco décadas depois, ao revisitar essa história, o que me espanta é a liberdade de Ângela Diniz. Em um tempo em que mulher separada carregava um estigma social, ela rompeu um casamento de nove anos, com três filhos, e não se escondeu. Não pediu desculpas por existir fora do roteiro. Não se encolheu diante do julgamento alheio. Pagou com a vida o preço de enfrentar estereótipos e preconceitos. 

Foi assassinada pelo machismo travestido de amor. No tribunal, a tese da “defesa da honra” tentou transformar o crime em gesto passional, como se o corpo de uma mulher fosse extensão de parte do homem. Como se rejeição fosse uma afronta imperdoável. Foi preciso que feministas gritassem o óbvio — quem ama, não mata — para que o julgamento fosse anulado e Doca Street, finalmente, condenado. 

Há uma lenda judaica que narra a existência de uma mulher antes de Eva. Chamada de Lilith, fora criada do mesmo barro que Adão, não de sua costela. Companheira possível, mas indomável. Escolheu partir do Éden por não aceitar a submissão. Desde então, somos pressionadas para aceitar o papel de costela: um corpo “parte, nunca inteiro. Corpo de outro, nunca o nosso. 

Um grito ecoa hoje diante dos crimes de feminicídio: 

Sabemos andar sozinhas. 
Não nos matem.                                                                                                                            

Não nos atropelem. 
Não nos arrastem por debaixo do carro. 

Queremos apenas o que sempre foi nosso: o direito de sermos livres. 

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.

Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.               Marinalda percebe que construiu uma vida inteira ...