A cartografia do corpo
Era
uma mulher que reconstruiu a cartografia do seu corpo. Seguia com o namorado
pelas ruas da selva de pedra. Uma princesa diferente, com o seu príncipe também
diferente, sem o cavalo branco. Os dois seguem sem medo, a vida transcorre
como um rio de água mansa, em leito sereno: mãos entrelaçadas, abraços e beijos
que transformam o mundo num lugar de proteção e afeto.
Imagine
o conflito de olhar e não se enxergar. Perguntar para si mesma de quem é este
reflexo que aparece no espelho? A silhueta da face, do pescoço, os braços, o
aparelho genital, as pernas, os peitos. Cada detalhe do corpo é algo
enigmático, guarda uma função e ao mesmo tempo não serve para nada. Tenta-se
piscar os olhos, e, como num passe de mágica, a mudança ocorreria. Não, não
acontece, é real, esse corpo não lhe pertence.
O
seu príncipe entende esse desejo, pois ele também deseja essa mulher, sabe que
a mudança está em curso. Foi por essa mulher, desse jeito, que luta pelo que
pode mudar, que o atraiu. Seu jeito de ser, a ternura, a determinação, a beleza
de ser mais do que um corpo em transformação, uma mulher que desnuda com um
olhar. Quando não podemos nos expressar só com o corpo, parece que o olhar tem
um papel ainda mais poderoso de seduzir. Esse homem acolhe essa mulher, juntos
vivem essa descoberta, estão unidos para desbravar esse caminho de
reconstrução. Isso é paixão, pode ser amor também, será.
Nem
sempre foi assim. Quando é que percebemos se somos homem ou mulher? Qual seria
nossa orientação sexual? O corpo representa nossa identidade. Ao olharmos no
espelho, não queremos ver nossa celulite, mas enxergamos o masculino ou
feminino. Esse olhar de identificação para a mulher trans tem um significado
especial, é o seu direito de existir, sua redesignação sexual, seu território
de encontro com o espírito de estar no mundo.
A
mãe desse filho que se transforma em filha enfrenta um turbilhão de batalhas
silenciosas. O mundo não lhe deu ferramentas para enfrentar esse enredo. Desde
cedo percebia que seu menino não cabia no “molde” sonhado: não gostava do azul,
não corria atrás de bola, não empurrava carrinho pelo chão. O mundo é um lugar
áspero, capaz de ferir com palavras e pedras invisíveis.
Ainda
assim, amar é escolher apoiar. Entre quedas e resistências, aprende-se que
proteger não é impedir a travessia. O sofrimento já existe, devemos amortecer
os golpes que a vida traz, a mãe está com suas mãos firmes e coração aberto
para que sua agora filha possa renascer inteira e feliz.
Não
temos controle sobre tudo, mas temos a capacidade de entender e aceitar que
todas as pessoas possam ser felizes de acordo com suas escolhas. Redesignação é
isso, pelo direito de existir.

Lindo!!! Emocionante!!👏👏👏👏👏❤️❤️
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