Crônicas dedicadas a observar o agora - memórias, universo feminino, tecnologia, afetos e inquietações - e canecas personalizadas para os amantes da arte literária.
domingo, 9 de agosto de 2026
domingo, 2 de agosto de 2026
terça-feira, 28 de julho de 2026
Ensaio literário: Por que assisti a "Betty, a Feia" três vezes?
Escrita pelo dramaturgo e roteirista colombiano Fernando Gaitán (1960–2019), Yo soy Betty, la fea estreou na Colômbia em 25 de outubro de 1999, pela RCN Televisión, permanecendo no ar até 8 de maio de 2001. Sua repercussão ultrapassou as fronteiras colombianas e transformou a obra em um fenômeno internacional, com exibição em mais de 180 países, dezenas de adaptações e reconhecimento do Guinness World Records como a telenovela mais adaptada e uma das mais bem-sucedidas da história da televisão.
Há poucos dias me fiz uma pergunta aparentemente banal: por que estou assistindo, pela terceira vez, a uma novela cujo enredo conheço praticamente de memória?
Assisti a Betty, a Feia pela primeira vez há mais de vinte anos. Eu estava por volta dos 40. A novela me marcou, embora naquele momento eu não soubesse explicar exatamente por quê. Três anos atrás, quando a encontrei disponível em streaming, assisti novamente a todos os capítulos. Agora, aos 63, estou terminando minha terceira incursão pela história de Beatriz Pinzón Solano e Armando Mendoza.
Não há suspense. Sei quem mente, quem trai, quem descobre, quem sofre. Sei quando Betty vai embora, quando retorna, quando Armando percebe que está apaixonado e como tudo termina.
Então, por que continuar assistindo?
Talvez porque algumas narrativas sobrevivam ao próprio enredo.
Não voltamos a elas para descobrir o que acontecerá. Voltamos porque alguma coisa permanece trabalhando dentro de nós. É o que acontece com certas obras literárias que atravessam épocas e permitem sucessivas leituras. O texto permanece; quem mudou foi o leitor.
Desta vez, portanto, comecei a assistir a Betty, a Feia de outro lugar. Menos interessada em saber o que aconteceria e mais atenta àquilo que a novela estava dizendo por baixo da história de amor.
E percebi que talvez nunca tenha sido, fundamentalmente, uma história sobre uma mulher feia que se torna bonita.
É uma história sobre o olhar.
Uma mulher feia dentro de uma fábrica de beleza
A escolha da Ecomoda como espaço principal da narrativa é extraordinária.
Betty não vai trabalhar em um banco, uma repartição pública ou uma empresa qualquer. Ela entra justamente em uma empresa de moda, um ambiente organizado em torno da produção da beleza.
Ali circulam modelos, estilistas, roupas, desfiles e corpos femininos submetidos a um padrão que a própria novela repete: 90–60–90.
É nesse universo que aparece Betty.
Óculos enormes, aparelho nos dentes, uma franja pouco favorecedora, cabelo preso, roupas antiquadas. Extremamente preparada e inteligente, mas absolutamente inadequada aos códigos estéticos daquele ambiente.
A família também participa da construção dessa Betty que chega à Ecomoda.
Seu pai, Hermes Pinzón, é um homem profundamente amoroso, mas também profundamente patriarcal. Convencido de que protege a filha dos perigos do mundo, acaba moldando sua aparência e seu comportamento: as roupas discretas, o penteado sem vaidade, a vigilância constante e a ideia de que uma "moça de família" deve ser reservada. Ao seu lado, a mãe representa uma presença silenciosa e acolhedora. É ela quem escuta, consola e oferece afeto, embora raramente confronte a autoridade do marido. Betty não chega à empresa apenas com óculos, aparelho e roupas antiquadas; chega trazendo consigo uma educação sentimental construída dentro de casa.
E há uma ironia: a mulher que visualmente menos parece pertencer à Ecomoda torna-se indispensável para seu funcionamento.
Ao redor dela existe ainda o chamado “Quartel das Feias”, formado pelas secretárias da empresa. E aqui está uma das grandes provocações da novela: aquelas mulheres não são propriamente feias. São mulheres comuns.
Não têm necessariamente corpos de modelo, cabelos impecavelmente escovados ou roupas sofisticadas. Trabalham, pegam condução, têm problemas familiares, financeiros e amorosos. São corpos cotidianos colocados diante de corpos produzidos para representar um ideal.
De um lado, as modelos.
Do outro, o Quartel das Feias.
Umas representam a empresa; outras fazem a empresa funcionar.
E entre esses dois mundos circula Hugo Lombardi, o estilista que não se cansa de chamar Betty e suas companheiras de feias. Hugo funciona quase como um guardião das fronteiras estéticas da Ecomoda: ele determina quem pertence ao universo da beleza e quem deve permanecer fora dele.
Nesse sentido, “feia” deixa de ser apenas uma característica física. Torna-se uma categoria social.
Patrícia Fernández e a aparência como capital
Patrícia Fernández torna essa oposição ainda mais interessante.
Loira, magra, elegante, bem-vestida, amiga de Marcela, ela possui exatamente os signos de feminilidade valorizados naquele ambiente. E não se cansa de lembrar seus famosos seis semestres de estudos na San Marino.
Mas Patrícia vive sem dinheiro.
Sua aparência comunica uma posição que sua realidade econômica não consegue sustentar. Ela precisa continuamente preservar os signos externos de pertencimento a um universo de prestígio.
Patrícia e Betty constituem, assim, quase uma oposição perfeita.
Betty possui competência sem a aparência valorizada.
Patrícia possui a aparência valorizada sem demonstrar a mesma competência.
Uma parece não possuir nada e progressivamente revela tudo o que possui.
A outra parece possuir tudo e progressivamente revela sua fragilidade.
E Patrícia precisa trabalhar justamente ao lado do Quartel das Feias, grupo do qual tenta se distinguir continuamente. A guerra entre elas não produz apenas algumas das melhores situações cômicas da novela. Revela também uma disputa por reconhecimento e pertencimento.
Nicolás: o “Betty” masculino
Nicolás Mora, melhor amigo de Betty, introduz outra variação desse jogo.
Assim como Betty, ele recebe todos os signos necessários para ser considerado “feio”: óculos, penteado engomado, roupas pouco atraentes, comportamento socialmente desajeitado.
Mais uma vez, a novela parece demonstrar que a feiura precisa ser construída.
Óculos, cabelo, roupas, postura e gestos funcionam como signos que ensinam o espectador a classificar aquele personagem.
E então acontece o improvável encontro entre Nicolás e Patrícia.
A mulher que representa o padrão de beleza aproxima-se do homem considerado estranho e pouco atraente, especialmente quando ele passa a circular associado a dinheiro e poder.
Se o corpo funciona como uma espécie de capital para Patrícia, o dinheiro e o status passam a funcionar como capital para Nicolás.
A novela brinca o tempo inteiro com aquilo que faz alguém ser considerado desejável.
Armando sabia conquistar. Não sabia amar.
Talvez a transformação mais interessante da novela, entretanto, não seja inicialmente a de Betty.
É a de Armando.
No começo, Armando Mendoza é um homem inteiramente adaptado ao universo da Ecomoda. Bonito, mulherengo, cercado por modelos, acostumado a relações rápidas e à infidelidade, ele parece consumir imagens femininas.
Até que Betty entra em sua vida.
Mas havia um problema para o próprio roteiro: como um homem construído dessa maneira começaria espontaneamente a cortejar justamente a mulher que seu universo classificava como não desejável?
Provavelmente não começaria.
Era necessário um motivo.
E a novela cria um motivo terrível.
Pressionado pela disputa da presidência da Ecomoda, ameaçado por Daniel Valencia e envolvido numa sucessão de decisões empresariais equivocadas, Armando acaba dependendo de uma empresa criada em nome de Betty, a Terramoda.
Mario Calderón, seu amigo e cúmplice nas aventuras amorosas, então apresenta a solução: Armando deveria seduzir Betty para garantir seu controle sobre a situação.
É uma fraude.
E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem dramaticamente.
Armando não sabe como seduzir Betty. Ela está fora de todo o repertório feminino com o qual ele aprendeu a lidar.
Mario precisa praticamente escrever o papel que Armando deverá interpretar.
Bilhetes. Presentes. Palavras românticas. Gestos calculados.
Mario escreve; Armando representa; Betty acredita.
Até que algo sai completamente do controle.
Armando começa a sentir.
O falso sedutor acaba seduzido.
E um pequeno detalhe da novela passa a adquirir enorme importância: quando Armando realmente se apaixona, começa ele próprio a escrever.
Já não precisa que Mario produza sua linguagem amorosa.
No começo, Armando representa um homem apaixonado.
Depois, torna-se aquele homem.
Ele sabia conquistar mulheres. Descobre, com Betty, que não sabia amar.
E isso explica também a violência da descoberta posterior da fraude.
Betty passou a vida aprendendo que um homem como Armando jamais poderia desejar uma mulher como ela. Quando finalmente acredita que está sendo amada e descobre que houve um plano para seduzi-la, sua antiga crença parece brutalmente confirmada.
“Eu estava certa. Era impossível que ele me amasse.”
A tragédia está justamente no desencontro: quando Betty descobre que o amor começou como mentira, ele já havia se tornado verdade.
A mulher inteira
Talvez seja esse o ponto que mais me fascine na relação entre os dois.
Armando estava acostumado a olhar para mulheres bonitas. Mas olhar não significa necessariamente ver.
As modelos sucediam-se em sua vida. Havia desejo, conquista, sexo, infidelidade. Mulheres que, muitas vezes, funcionavam quase como imagens intercambiáveis.
Com Betty acontece outra coisa.
Ele conhece sua inteligência, sua lealdade, seus medos, sua fragilidade, seu humor, sua competência. Convive com ela.
É como se nas outras mulheres Armando encontrasse o simulacro e, em Betty, encontrasse a mulher inteira.
Ele começa a desejar justamente aquela mulher que seu próprio sistema de valores dizia que não deveria desejar.
Por isso a transformação física posterior de Betty não pode explicar o amor de Armando.
Ele se apaixona antes.
E esse “antes” muda tudo.
Quando Betty começa a olhar para Betty
Mas há outra transformação acontecendo.
Se Hermes Pinzón representa a voz da proteção e da tradição, Catalina Ángel desempenha um papel quase oposto. Ela lembra a fada madrinha dos contos de fadas, mas sem recorrer à magia. É quem oferece a Betty a oportunidade de reconstruir sua autoestima e de descobrir que a verdadeira transformação não consiste apenas em mudar a aparência, mas em reconhecer o próprio valor. Ao levá-la para Cartagena, Catalina não cria uma nova Betty; ajuda a revelar a mulher que sempre existiu sob as expectativas da família, da sociedade e da própria Ecomoda.
Betty também precisa aprender a olhar para si mesma.
Mesmo depois da mudança estética, ela não se transforma imediatamente numa mulher segura de seu poder de sedução. Há estranhamento. Há insegurança. Há momentos em que parece não compreender por que uma mulher deveria gastar tanto tempo com base, blush, batom, cabelo e roupas.
Ela aprende os códigos da beleza sem apagar completamente a mulher que viveu fora deles.
E talvez seja justamente por isso que uma das cenas finais da novela seja tão significativa.
Já na presidência da Ecomoda, Betty participa do lançamento de roupas destinadas não apenas aos corpos idealizados das modelos, mas às mulheres comuns.
E quem entra na passarela?
As mulheres do Quartel das Feias.
Inicialmente inseguras, elas não querem desfilar. Betty conversa com cada uma, trabalha sua confiança, encoraja-as.
Então entram.
Uma depois da outra.
As mulheres que durante toda a novela permaneceram nos bastidores ocupam finalmente o espaço máximo de visibilidade de uma empresa de moda: a passarela.
É uma cena emocionante porque fecha um círculo.
No início, a Ecomoda dizia às mulheres quais corpos poderiam representar a beleza.
No final, Betty começa a dizer à Ecomoda que existem outras mulheres.
A transformação deixa de ser apenas individual.
Por isso, sua transformação é mais profunda do que parece.
Ela não rompe apenas com os padrões de beleza impostos pela Ecomoda. Rompe, de maneira delicada, com a imagem que aprendeu a construir de si mesma desde a infância. Entre o olhar protetor do pai, os padrões estéticos da empresa e o olhar amoroso que Armando aprende, lentamente, a lançar sobre ela, Betty realiza talvez a mais importante de todas as mudanças: aprende a olhar para si como uma mulher inteira, e não apenas como a "feia". É essa conquista interior que torna sua transformação tão convincente e faz da novela uma história que ultrapassa o simples conto de fadas da mulher que ficou bonita.
Betty não simplesmente consegue encontrar um lugar dentro da Ecomoda.
Ela faz a Ecomoda criar lugar para mulheres como ela.
Marcela talvez seja a personagem mais melancólica da novela.
Bonita, elegante, rica, sócia da Ecomoda, ela representa tudo aquilo que socialmente costuma ser associado ao sucesso feminino. Ainda assim, vive aprisionada pela insegurança afetiva. Ao longo da narrativa, não perde sua beleza, mas, em muitos momentos, perde algo ainda mais precioso: a própria dignidade. Telefona, vigia, perdoa, suporta sucessivas traições, acreditando que o amor insistirá em permanecer. Curiosamente, a novela parece dizer que nem Betty nem Marcela são livres enquanto organizam suas vidas em torno do olhar de Armando. Uma precisa descobrir que merece ser amada; a outra precisa descobrir que amor nenhum justifica renunciar ao próprio respeito.
Por que volto?
Talvez agora eu consiga responder à pergunta que iniciou esta reflexão.
Por que assisti a Betty, a Feia três vezes?
Porque, por baixo da comédia, do romance, das brigas, dos ciúmes e das situações absurdas, existe uma narrativa sobre experiências profundamente humanas: ser visto e permanecer invisível; desejar e acreditar que não se tem o direito de ser desejado; parecer e ser; pertencer e ser excluído.
A Ecomoda funciona como uma pequena sociedade que classifica continuamente as pessoas: bonita ou feia, rica ou pobre, elegante ou cafona, chefe ou empregado, desejável ou indesejável.
Betty atravessa essas classificações.
Armando também.
Talvez por isso a história tenha sobrevivido tão bem ao tempo e atravessado tantas fronteiras culturais.
Quando assisti à novela pela primeira vez, por volta dos 40 anos, alguma coisa naquela narrativa me atingiu.
Não soube nomear.
Mais de vinte anos depois, assistindo pela terceira vez, percebo que a novela continua praticamente a mesma.
Quem mudou fui eu.
Hoje já não assisto apenas para saber se Betty e Armando ficarão juntos.
Observo os óculos, as roupas, o 90–60–90, o Quartel das Feias, as modelos atravessando os corredores, os insultos de Hugo Lombardi, a beleza de Patrícia Fernández, a estranheza de Nicolás Mora, os bilhetes de Mario Calderón e um Armando que começa fingindo um sentimento até descobrir que já não está fingindo.
Talvez seja isso que algumas narrativas conseguem fazer conosco.
Na primeira vez, queremos saber como terminam.
Na segunda, queremos sentir novamente.
Na terceira, finalmente começamos a perguntar:
por que essa história nunca terminou dentro de mim?
*Ao escrever esta história, Fernando Gaitán talvez não imaginasse que estava criando apenas uma novela. Criou uma narrativa capaz de atravessar culturas, gerações e diferentes formas de olhar o mundo. Mais de vinte anos depois, Betty, a Feia continua nos convidando a perguntar quem somos quando deixamos de ser definidos apenas pela aparência.
domingo, 28 de junho de 2026
Série Migrações forçadas
Episódio 1: O que são migrações forçadas?
série baseada no livro Mulheres e Migrações forçadas no Rio de Janeiro: trajetórias dos corpos femininos, violência, xenofobia e resitências.
Quantas vezes atravessamos as fronteiras do mundo acreditando que somos cidadãos planetários. Não importa o país, o Hemisfério Norte ou Sul, o Ocidente ou Oriente. Somos seres humanos, abertos a conhecer novas culturas, aprender outros idiomas e descobrir diferentes maneiras de viver.
Lembro-me dos nossos ancestrais nômades. Guiavam-se pelo clima e pela disponibilidade de alimento. Onde havia caça e abrigo, ali permaneciam. No dia seguinte, retornavam a caminhada, porque sobreviver significava continuar em movimento. Era o seu modo de vida.
Lembro também de um trecho da canção Comida, dos Titãs:
"A gente não quer só comida..."
Afinal, a fome humana nunca foi apenas de pão. Temos fome de dignidade, de pertencimento, de afeto, de arte e de esperança.
Agora imagine ter de deixar o seu país não por escolha, mas porque já não há outra possibilidade. As panelas estão vazias. A violência ocupa as ruas. Guerras. Perseguição Política. A esperança parece perder as forças. O túnel escurece.
Hoje, milhões de pessoas também caminham em busca de um lugar seguro. Mas há uma diferença fundamental: elas não partiram porque esse era seu modo de vida. Partiram porque permanecer deixou de ser uma possibilidade.
Mesmo assim, algo permanece vivo: o desejo de continuar.
É esse desejo que se alimenta da própria dificuldade e faz alguém olhar para o horizonte em busca de um lugar onde ainda seja possível recomeçar.
Mas o mundo nem sempre é acolhedor.
Já não enfrentamos tribos em disputa por territórios, mas convivemos com outras fronteiras: o preconceito, a xenofobia, a indiferença e o medo do diferente.
Talvez possamos aprender, mais uma vez, com nossos ancestrais. Erguer os olhos para o céu. Contemplar as nuvens, as estrelas, a lua e o sol. Eles permanecem ali, cumprindo silenciosamente seu percurso, enquanto a Terra gira e a vida insiste em se transformar.
Migrar talvez seja uma das experiências mais antigas da humanidade.
Recomeçar, certamente, continua sendo uma das mais difíceis.
E, apesar de tudo, ninguém disse que seria fácil. Mas desistir nunca foi uma opção para quem ainda acredita que, depois da travessia, pode existir um novo lugar para chamar de lar.
domingo, 7 de junho de 2026
Vamos bater um papo na varanda?
É noite. Você mora num lugar ermo, cercado por árvores, mato e animais. O céu está estrelado. O silêncio domina a paisagem.
De repente, alguma coisa acontece.
Os cães começam a latir. Os pássaros se agitam. Há um movimento estranho no escuro. Você sai para o quintal e percebe que todos os animais estão olhando para a mesma direção. Como se compartilhassem um segredo. Como se estivessem se comunicando com algo que você não consegue ver.
Pronto. Estamos diante do inexplicável.
Foi impossível não lembrar das recentes postagens nas redes sociais sobre um suposto visitante extraterrestre no interior do Paraná. Bastou um vídeo para que a internet entrasse em estado de alerta. Uns acreditavam. Outros zombavam. E muitos, como eu, apenas observavam fascinados.
No fundo, gostamos de mistérios.
Desde os tempos mais remotos, o ser humano olha para o céu em busca de respostas. As estrelas, a Lua, as montanhas, os rios e o mar sempre despertaram perguntas maiores do que nós mesmos. Talvez porque a vida seja esse enorme enigma que tentamos decifrar sem muito sucesso.
Seria possível existir vida apenas na Terra?
Acredito que não. O universo é grande demais para caber somente em nós. Entre galáxias, buracos negros, energia escura e fenômenos que mal compreendemos, talvez existam formas de vida tão curiosas quanto a nossa.
Mas, enquanto os extraterrestres não se apresentam oficialmente, seguimos conversando com inteligências artificiais.
Convenhamos: é mais simples.
Sabemos como foram criadas, mesmo sem saber exatamente até onde poderão chegar. Quando a conversa não agrada, basta fechar o aplicativo. Já um extraterrestre talvez seja mais difícil de dispensar.
Imagine acordar de madrugada, ir até o quintal e encontrar um ser verde descendo lentamente do céu.
— Olá, terráqueo.
— Olá...
— Vamos bater um papo na varanda?
— Claro. Mas sobre o quê?
— Não sei. Amenidades.
Pensando bem, talvez os extraterrestres não sejam tão diferentes de nós.
Talvez eles também estejam apenas procurando alguém para conversar enquanto observam as estrelas.
domingo, 31 de maio de 2026
O almoço da turma da hidro
Era a primeira vez que eu participava.
Confesso que fui sem grandes expectativas. Um almoço é apenas um almoço, pensei. Pessoas conversando, parabéns aos aniversariantes, algumas fotos para registrar o encontro e pronto.
Mas não foi isso que aconteceu.
Em determinado momento, olhando aquela mesa cheia de mulheres e homens animados, conversando sobre viagens, passeios, filhos, projetos, exercícios, restaurantes e planos para os próximos meses, tive uma percepção inesperada.
Durante muito tempo, eu me referia a pessoas daquela faixa etária como "as senhoras", "os senhores", "as coroas".
Era uma categoria distante de mim.
Mesmo tendo ultrapassado os sessenta anos, ainda me surpreendo quando o espelho ou a data de nascimento insistem em lembrar a minha idade.
Mas, naquele almoço, algo se deslocou.
Pela primeira vez, não estava observando a velhice de fora.
Eu estava dentro dela.
E essa constatação não veio acompanhada de tristeza.
Veio acompanhada de espanto.
Porque aquelas pessoas não correspondiam à imagem de velhice que durante tantos anos habitei no imaginário.
Não estavam falando apenas de doenças.
Não estavam se lamentando do tempo que passou.
Não pareciam esperar o fim de alguma coisa.
Ao contrário.
Estavam ocupadas vivendo.
Riam alto.
Faziam planos.
Marcavam passeios.
Comentavam filmes.
Falavam dos netos, dos filhos, dos amores e das viagens.
E, de repente, percebi que não havia uma distância entre elas e eu.
Eram minhas contemporâneas.
Minhas amigas.
Minha geração.
Talvez envelhecer seja também isso: abandonar a ideia de que os velhos são sempre os outros.
Talvez exista um momento em que deixamos de olhar para a velhice como uma categoria social e começamos a enxergá-la como uma experiência humana.
Uma experiência cheia de limitações, é verdade.
Mas também cheia de possibilidades.
Saí daquele almoço pensando que a velhice que eu temia não era exatamente a velhice real.
Era uma imagem antiga dela.
A realidade estava sentada à minha frente, dividindo sobremesas, contando histórias e combinando o próximo encontro.
E, pela primeira vez, senti que pertencia àquela mesa.
domingo, 24 de maio de 2026
Como nasceu a internet?
No ônibus, voltando do trabalho, observei que ninguém conversava. Cada pessoa estava mergulhada na luz do próprio celular. Fiquei pensando em como a internet começou. Surgiu como um espaço descentralizado, voltado para bases militares, priorizando uma comunicação rápida e prática. Lembro quando comecei a trabalhar na burocracia administrativa e fiquei entusiasmada com a praticidade daquele novo universo. Era 1995. Não fiz curso algum. Seguia tutoriais, apertava teclas, errava, voltava e descobria, aos poucos, as funcionalidades da internet.
No início, ela era apenas ferramenta de trabalho. Aos poucos, porém, passou a ocupar outros espaços da vida. Surgiram as redes sociais e começamos, sem perceber, a ficar cada vez mais presos às telas. Já não se tratava apenas de postar fotografias de aniversário ou conversar com amigos e parentes. Passamos a viver um pouco menos a própria vida para observar a vida dentro da tela.
E, nesse movimento silencioso, fomos nos afastando do que existe de mais genuíno: a convivência com o outro. Mais do que pesquisadores e especialistas, nós mesmos percebemos isso no cotidiano. Você sabe quando sua mulher está com um olhar diferente? Quando o marido silencia mais do que o normal? Quando o filho parece distante? Talvez não. Mas certamente sabemos quando a bateria do celular está acabando.
Hoje, às vezes, é mais fácil conferir se o aparelho está na bolsa do que verificar se levamos os documentos.
Já vi pessoas se atrasarem para compromissos importantes porque esqueceram o celular carregando em casa. Mesmo sem depender diretamente dele para trabalhar, voltam para buscá-lo, como se uma parte da própria existência tivesse ficado para trás. É estranho pensar que nossa vida tenha se tornado tão atrelada a um objeto que, um dia, servia apenas para fazer ligações.
O que vimos nessa evolução da internet foi também a ilusão da companhia permanente. Passamos a chamar de “influencers” pessoas que filmam a própria rotina: o café da manhã, o almoço, os exercícios, os filhos, a ida ao mercado, conversas banais do cotidiano. Tudo precisa ser mostrado, registrado, publicado.
E eu me pergunto: que graça há nisso?
Sair de casa, conversar sem pressa, olhar nos olhos, rir até faltar ar, ouvir música junto, paquerar, voltar para casa carregando histórias — não seria mais interessante?
Na minha época existia a “festa americana”. Cada pessoa levava um salgado ou uma bebida. A música tocava a noite inteira e, sem perceber, criávamos memórias que permaneceriam conosco muitos anos depois.
Hoje fico imaginando quais lembranças estamos construindo.
Talvez apenas a memória de um dedo deslizando sobre uma tela.
E isso é triste.
domingo, 17 de maio de 2026
O calor do olhar do outro
Às vezes acordamos e vamos direto pegar o celular. Começamos a olhar notícias, redes sociais ou postagens como se fossem algum comunicado ou informação importante. De repente, nos percebemos passando o dedo aleatoriamente pela tela, observando esquetes e outros assuntos aparentemente “nada a ver”. Depois dessa consulta cotidiana, levantamos e seguimos a vida.
Penso que, se não fosse o celular, talvez tivéssemos mais tempo para realizar tarefas e até para conversar normalmente com o outro. Mas será que a tecnologia é ruim? Acredito que não. Hoje não precisamos ir ao banco, podemos pedir comida por aplicativo, conversar pelo WhatsApp com pessoas de qualquer lugar do mundo, viajar e pagar tudo pelo celular, sem carregar dinheiro físico.
Entretanto, existe também um lado delicado: a ausência da interação olho no olho. Aquela conversa longa com familiares e amigos… ah, que saudade disso. Ainda assim, não acredito que a evolução tecnológica elimine necessariamente o contato humano. Imagino o homem da pré-história aguçando sua atenção para perceber a proximidade do perigo. Foi justamente essa capacidade de observar, interpretar sinais e criar ferramentas que permitiu sua sobrevivência. No fundo, a evolução humana só foi possível porque nossa ancestralidade já desenvolvia tecnologias para enfrentar a própria fragilidade.
Então, quais características fizeram o homem evoluir? Eu diria que foi justamente essa competência em criar ferramentas. Daí nasceu a tecnologia. Hoje, a Inteligência Artificial é um modelo computacional que interage com o ser humano em diálogos que revelam algo profundamente humano: nossa necessidade intrínseca de comunicação. Desde o tempo das cavernas, os desenhos rupestres já demonstravam o desejo de contar histórias e deixar marcas no mundo.
Talvez o celular não seja o culpado — e talvez nem existam culpados. Talvez nossa ancestralidade esteja apenas nos lembrando de que não basta possuir tecnologia. É preciso compartilhar histórias, fazer-se ouvir e também escutar o outro. Esse desejo não surge do nada. Ele aparece naquele instante em que sentimos o calor do olhar de alguém.
A tecnologia é a mediadora, mas nós somos a consciência.
Olhemos mais para o outro, sem demonizar a tecnologia, mas compreendendo o nosso papel nesse universo cercado pela escuridão do espaço.
Sejamos luz nesse mistério da existência humana.
domingo, 10 de maio de 2026
Entre Flintstones e Jetsons
Bem, pelo menos, não ficávamos ansiosos, pois já estávamos acostumados a esperar. Lembra do telefone com fio? Havia tempo de conversar ouvindo a voz do outro, sim, porque o objetivo era esse mesmo, para falar, mesmo indo ao orelhão da esquina, enfrentando mais uma fila; podíamos fazer um depósito de uma quantia no banco, sem ficar com medo de alguém sacar o nosso dinheiro por causa de um golpe pelo WhathsApp.....
Lembro daquele desenho que assistia quando quando era criança, me sinto com se tivesse vivido no tempo do The Flintstones, sem saber.
Hoje, tocamos em telas.
Com um gesto leve, chamamos carros, encurtamos distâncias, criamos imagens, gravamos vozes, inventamos mundos. A vida cabe na palma da mão — ou pelo menos parece caber. Vivemos, agora, como aquele desenho do The Jetsons.
Mas há algo curioso nesse encontro de realidades diferentes da nossa geração.
Não somos apenas passado e futuro. Somos travessia. Carregamos nas mãos que deslizam na tecnologia a memória de tudo que já foi manual. Sabemos o peso das coisas, o tempo das coisas, o valor das coisas. E talvez seja isso que nos diferencia.
Porque há quem viva só de apertar botões — sem saber o que dizer com eles. E há quem, como nós, escreva antes de clicar. Pensa, antes de postar. Sinta, antes de mostrar.
Não dependemos da tecnologia. Nós a usamos. E quando usamos, algo raro acontece: a ferramenta deixa de ser ruído e passa a ser linguagem. No fundo, somos os mesmos, só que agora, com mais possibilidades.
E talvez a pergunta não seja se somos Flintstones ou Jetsons.
Mas, o que fazemos com tudo isso que está ao alcance das nossas mãos?
domingo, 3 de maio de 2026
Entre portas e espelhos
Fiquei pensando como algo táo simples pode carregar tanto peso. Lembrei-me que, quando eu era criança, banheiros tinham portas e eram apenas banheiros. Abríamos. Fechávamos. Entrávamos. Saíamos. Simples assim. Não havia tantas camadas. Ou, talvez, até houvesse, mas eu ainda não sabia identificá-las.
Hoje, sabemos, nomeamos e debatemos. Só falta aprender algo essencial: olhar o direito do outro existir. Há quem diga que estamos avançando, mas há quem diga que estamos retrocedendo. E, no meio disso tudo, estão as pessoas reais, concretas, suas histórias, seus medos, suas buscas por reconhecimento. Talvez o problema não esteja exatamente nas portas. Talvez esteja nos espelhos.
No que vemos quando olhamos para o outro.
No que projetamos.
No que tememos.
No que ainda não conseguimos compreender.
A história nos mostra que toda mudança provoca desconforto. Novas formas de existir não cabem naquilo que denominamos padrão. Ou seja, há uma pressão normativa que recusa de imediato que um novo comportamento seja aceito, assimilado e acomodado na estrutura social. Então surgem tensões, questionamentos e resistências.
Mas, por outro lado, também surgem possibilidades de escuta, revisão e ampliação do olhar. Porque, no fundo, ninguém quer apenas atravessar uma porta. E sim ser reconhecido ao passar por ela. Temos que aprender que viver em sociedade não é apenas dividir espaços, mas reconhecer existências.
E você, quando olha para o outro... o que você vê primeiro: a diferença ou a humanidade?
Talvez a resposta esteja nos espelhos.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Minissérie "Entre páginas e passos de dança.
Episódio 5: O amor não acaba, se transforma.
Marinalda chegou do baile Flashback. Marcelo cochilava no sofá. Ao abrir a porta, ela entrou pensando Senti a sua falta. Ao ouvir o barulho, Marcelo despertou, levantou-se imediatamente e foi ao encontro dela. Os dois se olharam por alguns instantes. Em silêncio, apenas o olhar já dizia tudo: eles se amavam e queriam ficar juntos.
A cena termina com um abraço sentido. A mão de Marcelo desliza pelo braço de Marinalda, e, quando suas mãos se encontram, o tempo parece suspenso. A força daquele olhar falou mais do que qualquer argumento. Ainda havia sentimento. Ela, por um momento, hesitou, mas seu coração reagiu - aquele frio na barriga, de anos atrás, quando se encontraram na faculdade, não havia desaparecido. Há coisas que não precisam de explicação, apenas de disponibilidade para sentir.
O tempo passou. Marcelo não mudou. Marinalda também não. Mas, agora, um compreendia o outro. A vida não é uma rota com caminhos retos e planos, sem obstáculos. Pelo contrário: há curvas, ladeiras - às vezes muito íngremes.
Marcelo havia viajado a trabalho e não voltaria naquele dia. Chovia.
Manuela se tornou uma mulher muito bonita. Apesar de não ter resolvido todas as suas questões internas, continuava introspectiva, com o olhar distante e o smartphone sempre por perto. Mas já não vivia apenas no quarto. Ela se arruma: um vestido justo, que valoriza suas curvas, cabelos longos, maquiagem leve, salto alto.
Chega à festa. O som dos seus passos se mistura ao ambiente. Ainda com um olhar contido, observa ao redor. Então, decide guardar o celular. O vento toca seus cabelos. Surge um sorriso - leve, quase inesperado. Ela começa a dançar.
Há algo diferente. No meio da música, das conversas e dos corpos em movimento, parece nascer uma nova Manuela. Ao longe - mas nem tanto - um rapaz, sozinho, degusta seu drink. Em meio ao ambiente animado, seu olhar se fixa em alguém. É Manuela. Talvez seja o início de algo. Talvez.
Marinalda caminha pela casa. A chuva continua forte. Ela vai até a janela. Como em um filme, algumas imagens do passado atravessam sua memória - entre elas, a figura de uma senhorinha na cadeira de balanço.
No dia seguinte, já arrumada, ela se depara com Marcelo. Ele surge elegante, com um blazer bem cortado. Seu olhar, ainda o de um homem charmoso, encontra o dela. Os dois estão no salão e dancam como quando se conheceram.
Marinalda veste um vestido vermelho. Os cabelos grisalhos estão presos em um coque alto. Seu sorriso é leve.
Ela está feliz.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Minissérie "Entre páginas e passos de dança.
Marinalda percebe que construiu uma vida inteira para os outros e já não sabe mais quem é sem essas funções. Acreditou no amor, viveu intensamente sua história com Marcelo, casou-se, e o tempo seguiu seu curso. Como em tantas histórias, veio a construção da família.
Tudo começou com um olhar, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. A partir dali, ela se tornou mãe, esposa, dona de casa - e o centro da base emocional da família. Até que Manuela chegou à adolescência. E, com isso, algo se rompeu. A vida que parecia prevista, organizada, deixou de ser suficiente. Porque o equilíbrio emocional de uma casa não depende de uma só pessoa. Marinalda já não dava conta de tudo: do cuidado com a filha, das responsabilidades da casa, da atenção ao marido. E, nesse processo, foi se esquecendo de si.
Ela cresceu em uma família onde a mulher era preparada para o casamento, visto como o coroamento da existência feminina. Lia fotonovelas como quem ensaiava o próprio destino - o sonho da mulher que encontra seu grande amor. Seu corpo abrigaria o fruto dessa união. Ao homem, caberia o papel de provedor, voltado para o mundo externo.
Agora, ela se pergunta: será que o que eu sinto é fruto desse papel que aprendi a desempenhar ou é um novo olhar que o tempo trouxe? Diante dessa inquietação, Marinalda procura a amiga Júlia. Decidem sair, dançar. Vão a um baile flashback, embalado pelas músicas da juventude. Vestido vermelho, cabelos soltos, se entrega ao ritmo. Fecha os olhos - e, como num filme, surgem imagens: as fotonovelas, o primeiro encontro com o Marcelo, o nascimento da filha. O DJ, atento, observa aquela mulher dançando com leveza - livre, por alguns instantes, de tudo o que a aprisiona.
Enquanto isso, Marcelo entra no quarto de Manuela. Como sempre, ela está no celular. Há um silêncio ali - talvez uma tristeza discreta, talvez o desejo de viver algo que só encontra nas telas. Ao ver o pai, seu olhar se ilumina. Eles conversam, riem, se aproximam - algo que há tempos não acontecia.
Depois, Marcelo volta para a sala. Senta-se no sofá, pega uma foto dos dois. Permanece ali por alguns instantes. O olhar denuncia: sente falta dela.
domingo, 19 de abril de 2026
Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios
domingo, 12 de abril de 2026
Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios
Episódio 2: Nascimento de Manuela
O gatilho para descobrir esse desejo talvez tenha sido justamente essas leituras. Eu acreditava que ia viver tudo aquilo que eu lia ... e via nos filmes românticos. Na Faculdade, minha amiga Júlia me apresentou o Marcelo. Um gato.
O tempo foi passando. A gente conversava sempre. Ele tinha um olhar que me seduzia completamente. Aos poucos, nossos caminhos começaram a seguir na mesma direção. Entre conversas simples e silêncios, não eram vazios que cresciam, mas um desejo enorme de ficarmos juntos. Nascia um sentomento leve, bonito ... e forte o suficiente para mudar tudo.
A vida prometia novas histórias, Marcelo era lindo, parecido com os meus namorados imaginários. Carinhoso. Me levava para passeios culturais. Eu gostava de tudo: dos encontros, dos beijos. dos abraços. Íamos ao cinema, à cafeteria, festas ... tanto da família quanto dos amigos.
Adorávamos Legião Urbana. Mas nossa trilha sonora era "Forever Young". Essa música marcou a nossa história desde quando nos conhecemos na Faculdade. Saíamos muito para dançar. Bons tempos. Nós nos casamos. Foi um dos dias mais importantes da minha vida. As juras de amor. Olho no olho. Tudo como eu sempre idealizei.
A consagração desse amor veio com a gravidez. Ver minha barriga crescer mês a mês ... acompanhar o desenvolvimento da nossa filha - sim, era uma menina. Arrumar o quarto, as roupinhas, ouvir o batimento do coração, esperar o grande dia... É mágico. Dá medo também. Porque é uma responsabilidade educar um novo ser.
Manuela nasceu.
Que emoçao.
Seja bem-vinda, minha filha.
Nunca imaginei que um ser tão pequeno pudesse me fazer tão grande.
A vida estava exatamente como eu sempre sonhei. E talvez tenha sido aí que eu parei de perceber algumas coisas.
domingo, 5 de abril de 2026
Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios
Episódio 1: A menina cresceu
Marinalda cresceu lendo romances. Passava horas, nos intervalos de seus estudos, torcendo pelo sucesso de seus personagens favoritos. Chegava a sonhar que era uma das personagens, ia dormir mais cedo para continuar a história na sua imaginação. Adormecia, sonhava... Quando acordava, tinha a impressão de ter continuado a história, reescrevendo o que tinha lido.
Tudo isso teve início por causa das fotonovelas da sua tia-avó, ela adorava aquelas revistas de fotonovelas. Marinalda perguntava: "Eu posso levar umas revistas?" - a tia respondia "Claro, deixa eu ver quais eu já li". Sim, ela comprava com regularidade as revistas, mesmo sem ter lido todas, mas tinha a coleção completa, não faltava nenhuma edição.
domingo, 29 de março de 2026
Entre páginas e passos de dança
Minha avó materna tinha uma irmã, a tia Lali, que costumava sentar-se à tarde para ler suas fotonovelas. Eram revistas que fizeram sucesso entre as décadas de 1950 e 1980, em que as histórias eram contadas por meio de fotografias, com poucas legendas. Ela costumava me dar algumas. Talvez por saber que eu gostava de ler – e gostava mesmo. As histórias, eram, na maioria das vezes, bem românticas.
Quem sabe se o que a minha tia-avó mais gostava era de participar da história. Algumas lembranças podiam se misturar à narrativa e transformar tudo em sonho, mesmo quando ainda estava acordada. Lembro-me daquela senhorinha, a revista no colo - como uma personagem de novela-, os óculos escorregando pelo nariz e uma xícara de chá ao lado.
E então, num desses silêncios, numa pausa, o impossível acontecia. O personagem saltava da página, ganhava corpo e presença. Por um instante, ela deixava de ser espectadora para se tornar protagonista. Uma música surgia – daquelas que a gente não sabe de onde vem – e lá estavam os dois, dançando pelo salão. Ele a conduzia com delicadeza, como se ela conhecesse cada passo, embora nunca tivesse tido a chance de aprender.
- Quero me casar – dizia ela, com a coragem que só os sonhos permitem - De véu, grinalda... e um buquê de rosas vermelhas.
- Sim, meu bem – respondia ele. - Vamos nos casar assim.
E continuavam a bailar, como se o mundo coubesse naquele instante. Mas a música acabava ... e ela voltava à página. Talvez com um leve sorriso. Talvez com um suspiro contido. Porque, no fundo, sabia que aquilo não era para ser vivido fora dali.
Seu casamento real não teve trilha sonora. Não teve dança. Nem promessas ditas com doçura. A vida a dois foi difícil - dessas que não cabem em fotografia bonita. Faltaram gestos, compreensão e, principalmente, amor.
Mas havia algo que o tempo não conseguiu apagar nela: a coragem de ainda querer sentir. A senhorinha cresceu, envelheceu, partiu ..., mas desistir não era uma palavra presente em seu dicionário. Se ainda estivesse entre nós, certamente se cadastraria em aplicativos de relacionamento. Conversaria, marcaria encontros, tentaria. Algumas histórias poderiam começar e terminar antes mesmo de acontecer. E isso aconteceria porque, se faltasse química, ela não seguiria adiante. Queria encontro de almas.
Ela ficou observando. Entre um petisco e um gole de bebida, acompanhava cada movimento daquele homem, que parecia ter feito as pazes com o tempo. Criou coragem. Levantou-se. Mas, naquele exato momento, ele já não estava mais na pista. A vida tem dessas ironias. Ela voltou a sentar-se. Mas não voltou a ser a mesma. Porque, antes disso, os olhares já tinham se encontrado. E, antes que a noite terminasse, ele se aproximou e lhe entregou um cartão. Disse que organizaria um baile em breve e que gostaria que ela comparecesse.
Para ele, talvez, fosse apenas mais um convite - mais uma pessoa na pista. Para ela, não. Era como se uma página antiga da fotonovela estivesse sendo reescrita - não no papel, sem legendas, sem fotografias. Havia algo ali de diferente... um começo.
E, quem sabe, desta vez... a vida pudesse, finalmente, parecer uma fotonovela.
Será que essa história é da minha tia-avó?
Ou a minha própria história?
Ou de qualquer mulher romântica?
Talvez ... também seja a sua.
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