quinta-feira, 23 de abril de 2026

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.


Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.

            Marinalda percebe que construiu uma vida inteira para os outros e já não sabe mais quem é sem essas funções. Acreditou no amor, viveu intensamente sua história com Marcelo, casou-se, e o tempo seguiu seu curso. Como em tantas histórias, veio a construção da família.

            Tudo começou com um olhar, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. A partir dali, ela se tornou mãe, esposa, dona de casa - e o centro da base emocional da família. Até que Manuela chegou à adolescência. E, com isso, algo se rompeu. A vida que parecia prevista, organizada, deixou de ser suficiente. Porque o equilíbrio emocional de uma casa não depende de uma só pessoa. Marinalda já não dava conta de tudo: do cuidado com a filha, das responsabilidades da casa, da atenção ao marido. E, nesse processo, foi se esquecendo de si.

         Ela cresceu em uma família onde a mulher era preparada para o casamento, visto como o coroamento da existência feminina. Lia fotonovelas como quem ensaiava o próprio destino - o sonho da mulher que encontra seu grande amor. Seu corpo abrigaria o fruto dessa união. Ao homem, caberia o papel de provedor, voltado para o mundo externo.

            Agora, ela se pergunta: será que o que eu sinto é fruto desse papel que aprendi a desempenhar ou é um novo olhar que o tempo trouxe? Diante dessa inquietação, Marinalda procura a amiga Júlia. Decidem sair, dançar. Vão a um baile flashback, embalado pelas músicas da juventude. Vestido vermelho, cabelos soltos, se entrega ao ritmo. Fecha os olhos - e, como num filme, surgem imagens: as fotonovelas, o primeiro encontro com o Marcelo, o nascimento da filha. O DJ, atento, observa aquela mulher dançando com leveza - livre, por alguns instantes, de tudo o que a aprisiona.

           Enquanto isso, Marcelo entra no quarto de Manuela. Como sempre, ela está no celular. Há um silêncio ali - talvez uma tristeza discreta, talvez o desejo de viver algo que só encontra nas telas. Ao ver o pai, seu olhar se ilumina. Eles conversam, riem, se aproximam - algo que há tempos não acontecia.

            Depois, Marcelo volta para a sala. Senta-se no sofá, pega uma foto dos dois. Permanece ali por alguns instantes. O olhar denuncia: sente falta dela.

domingo, 19 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios






Episódio 3: Algo já não estava bem.


        Minha filha cresceu no mundo digital. Adora um smartphone e fica grudada o dia todo. Eu adorava ler fotonovelas... mas tinha amigos, frequentava festas, cinemas, parques ... 
- Manuela, larga esse celular...
        E eu me pego pensando: será que ela também sonha em viver um grande amor? Mas com quem? Com a Inteligencia Artificial? E, pra piorar, não sai do quarto.
        Meu casamento está em crise. Marcelo chega em casa tarde, sempre cansado, sempre em reuniões. Eu não estou conseguindo lidar com isso. Não era assim que eu queria. Acho que tem histórias... que não têm final feliz. Eu queria dividir minhas angústias com ele. Mas não consigo. Quem me ouve é a Júlia.
        A Júlia escuta tudo. Não me dá respostas prontas - até porque não existem. Mas me ajuda a pensar. Outro dia falei com ela: - Se a Manu não tem amigos .. com quem ela conversa? Comigo? Não. Com o pai? Muito menos. A Júlia disse uma coisa que ficou na minha cabeça. que, às vezes, ser compreendido por um sistema que não critica, não questiona ... pode ser suficiente. Principalmente para os jovens. Sem cobrança. Sem conflito. Sem frustração.
        Aquilo me inquietou. Será que a Manu pode se apaixonar por uma IA? A Júlia, que faz mestrado em Psicologia Social, comentou uma vez que certas situações ativam coisas que já existem dentro da gente ... só estavam adormecidas. Então talvez não seja sobre a máquina. Talvez seja sobre o que a Manu projeta ali: desejos, carências, idealizações.
        - Já tem comida pronta?
        - Sua mãe já foi trabalhar. Pode se servir.
        Dona Clara estava na cozinha. Trabalha três dias lá em casa. Uma senhora doce, dessas que cuidam da gente com comida boa. A Manu chega, pega o prato ... e volta direto pro quarto. Como sempre.  Entro atrás. Tento conversar sobre a escola, sobre amigos. Nada. Olho preso no celular. Respostas curtas. Monossilabicas.
        Eu não aguentos mais essa situação. E o Marcelo ... não chega. Deve estar em mais uma reunião. Peço pra ela tomar banho, largar o celular e dormir. Ela nem discute. E isso ... é ainda pior.
        Vou pra sala. Sento. Abaixo a cabeça. E começo a chorar. A porta abre. Marcelo chegou. Eu levanto. Olho direto pra ele. E digo: 
        - A gente precisa conversar. Porque eu não sei em que momento a gente se perdeu.

domingo, 12 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

 Episódio 2: Nascimento de Manuela



        A minha tia-avó, dona Amélia, casou, não teve filhos, separou, e morava com seu irmão, também solteiro. Quando eu ia visitá-la, junto com minha mãe, sempre voltava com algumas revistas de fotonelas. Eu imaginava todas aquelas histórias. E, claro, eu sempre era a mocinha. Mas, sabe, não era por ingenuidade. Era porque eu acredito que todo mundo tem o desejo de viver um grande amor. 

        O gatilho para descobrir esse desejo talvez tenha sido justamente essas leituras. Eu acreditava que ia viver tudo aquilo que eu lia ... e via nos filmes românticos. Na Faculdade, minha amiga Júlia me apresentou o Marcelo. Um gato.

    O tempo foi passando. A gente conversava sempre. Ele tinha um olhar que me seduzia completamente. Aos poucos, nossos caminhos começaram a seguir na mesma direção. Entre conversas simples e silêncios, não eram vazios que cresciam, mas um desejo enorme de ficarmos juntos. Nascia um sentomento leve, bonito ... e forte o suficiente para mudar tudo. 

         A vida prometia novas histórias, Marcelo era lindo, parecido com os meus namorados imaginários. Carinhoso. Me levava para passeios culturais. Eu gostava de tudo: dos encontros, dos beijos. dos abraços. Íamos ao cinema, à cafeteria, festas ... tanto da família quanto dos amigos.

        Adorávamos Legião Urbana. Mas nossa trilha sonora era "Forever Young". Essa música marcou a nossa história desde quando nos conhecemos na Faculdade. Saíamos muito para dançar. Bons tempos. Nós nos casamos. Foi um dos dias mais importantes da minha vida. As juras de amor. Olho no olho. Tudo como eu sempre idealizei.

       A consagração desse amor veio com a gravidez. Ver minha barriga crescer mês a mês ... acompanhar o desenvolvimento da nossa filha - sim, era uma menina. Arrumar o quarto, as roupinhas, ouvir o batimento do coração, esperar o grande dia... É mágico. Dá medo também. Porque é uma responsabilidade educar um novo ser.

      Manuela nasceu.

     Que emoçao.

    Seja bem-vinda, minha filha.

    Nunca imaginei que um ser tão pequeno pudesse me fazer tão grande.

   A vida estava exatamente como eu sempre sonhei. E talvez tenha sido aí que eu parei de perceber algumas coisas.

domingo, 5 de abril de 2026

 Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

Episódio 1: A menina cresceu



        Marinalda cresceu lendo romances. Passava horas, nos intervalos de seus estudos, torcendo pelo sucesso de seus personagens favoritos. Chegava a sonhar que era uma das personagens, ia dormir mais cedo para continuar a história na sua imaginação. Adormecia, sonhava... Quando acordava, tinha a impressão de ter continuado a história, reescrevendo o que tinha lido.

        Tudo isso teve início por causa das fotonovelas da sua tia-avó, ela adorava aquelas revistas de fotonovelas. Marinalda perguntava: "Eu posso levar umas revistas?" - a tia respondia "Claro, deixa eu ver quais eu já li". Sim, ela comprava com regularidade as revistas, mesmo sem ter lido todas, mas tinha a coleção completa, não faltava nenhuma edição.

domingo, 29 de março de 2026

Entre páginas e passos de dança

 


Minha avó materna tinha uma irmãtia Lali, que costumava sentar-se à tarde para ler suas fotonovelas. Eram revistas que fizeram sucesso entre as décadas de 1950 e 1980, em que as histórias eram contadas por meio de fotografias, com poucas legendas. Ela costumava me dar algumas. Talvez por saber que eu gostava de ler – e gostava mesmo. As histórias, eram, na maioria das vezes, bem românticas. 

Quem sabe se o que a minha tia-avó mais gostava era de participar da história. Algumas lembranças podiam se misturar à narrativa e transformar tudo em sonho, mesmo quando ainda estava acordada. Lembro-me daquela senhorinha, a revista no colo - como uma personagem de novela-, os óculos escorregando pelo nariz e uma xícara de chá ao lado. 

E então, num desses silêncios, numa pausa, o impossível acontecia. O personagem saltava da página, ganhava corpo e presença. Por um instante, ela deixava de ser espectadora para se tornar protagonista. Uma música surgia – daquelas que a gente não sabe de onde vem – e lá estavam os dois, dançando pelo salão. Ele a conduzia com delicadeza, como se ela conhecesse cada passo, embora nunca tivesse tido a chance de aprender. 

 - Quero me casar – dizia ela, com a coragem que só os sonhos permitem - De véu, grinalda... e um buquê de rosas vermelhas. 

 - Sim, meu bem – respondia ele. - Vamos nos casar assim. 

E continuavam a bailar, como se o mundo coubesse naquele instante. Mas a música acabava ... e ela voltava à página. Talvez com um leve sorriso. Talvez com um suspiro contido. Porque, no fundo, sabia que aquilo não era para ser vivido fora dali. 

Seu casamento real não teve trilha sonora. Não teve dança. Nem promessas ditas com doçura. A vida a dois foi difícil - dessas que não cabem em fotografia bonita. Faltaram gestos, compreensão e, principalmente, amor. 

Mas havia algo que o tempo não conseguiu apagar nela: a coragem de ainda querer sentir. A senhorinha cresceu, envelheceu, partiu ..., mas desistir não era uma palavra presente em seu dicionário. Se ainda estivesse entre nós, certamente se cadastraria em aplicativos de relacionamento. Conversaria, marcaria encontros, tentaria. Algumas histórias poderiam começar e terminar antes mesmo de acontecer. E isso aconteceria porque, se faltasse química, ela não seguiria adiante. Queria encontro de almas. 

Já pensou se ela saísse numa noite, com amigosMúsica antiga, luz baixa ... e então surgisse um senhor que dançava como quem não deve nada à vida - leve, bem-humorado, alegre. Mais do que dançar, ele ensinava. Puxava pela mão, guiava os passos de quem ainda hesitava. Havia algo nele que lembrava... não sei... talvez aqueles personagens das fotonovelas. 

Ela ficou observando. Entre um petisco e um gole de bebida, acompanhava cada movimento daquele homem, que parecia ter feito as pazes com o tempo. Criou coragem. Levantou-se. Mas, naquele exato momento, ele já não estava mais na pista. A vida tem dessas ironias. Ela voltou a sentar-se. Mas não voltou a ser a mesma. Porque, antes disso, os olhares já tinham se encontrado. E, antes que a noite terminasse, ele se aproximou e lhe entregou um cartão. Disse que organizaria um baile em breve e que gostaria que ela comparecesse.  

Para ele, talvez, fosse apenas mais um convite - mais uma pessoa na pista. Para ela, não. Era como se uma página antiga da fotonovela estivesse sendo reescrita - não no papel, sem legendas, sem fotografiasHavia algo ali de diferente... um começo. 

E, quem sabe, desta vez... a vida pudesse, finalmente, parecer uma fotonovela. 

Será que essa história é da minha tia-avó?  

Ou a minha própria história?  

Ou de qualquer mulher romântica? 

Talvez ... também seja a sua. 

domingo, 22 de março de 2026

As pernas que falam sobre o tempo


Já pensaram em quantas histórias passaram pelos movimentos das nossas pernas? Se não fossem elas, o que diríamos dos lugares visitados? Há pernas que carregam em suas silhuetas os caminhos percorridos - cada marca do tempo guarda um período intenso da vida. 

Era um caminhar tranquilo, um dançar festivo. Quase como um mapa de uma vida que, na época, a gente não pensava muito - apenas vivia. Sem limitesQualquer ritmo servia: samba, bolero, tango, rock, axé, pagode. E nas festas de flashback ... ah, ali elas reinavam. Passinhos coreografados, risos soltos, o corpo obedecendo à música sem esforço. 

No futebol, são elas que fazem nascer aquele drible bonito que arranca gritos e alegria dos torcedoresMúsculos, articulações, movimento. Somos livres quando ela nos leva para  e para Com o tempo, porém, a marcha muda. Fica mais lenta, às vezes cansada - mas ainda segue 

E até nas lendas elas aparecem. Em Recife, existe a famosa história da Perna Cabeluda, que assustava moradores e acabou se tornando símbolo dos tempos duros da nossa história. 

Varizes? Joelho? Artrose? As marcas que vemos hoje são, muitas vezes, lembranças silenciosas de uma vida que se moveu. O tempo pode ser implacável, mas a vontade de continuar, não.  

Pernas grossas, magras, fortes, delicadas, rápidas ou vagarosas. Algumas saltitam, outras, precisam de apoio para cada passo. Mas nenhuma esquece o que é seguir. São elas que empurram o pedal da bicicleta, que sustentam o corpo na subida, que nos levam até um pôr do sol qualquer – desses que fazem tudo parecer ter valido a pena.  

Como não amar essas pernas cansadas e cheias de marcas? Elas só confirmam que o valor das coisas está na simplicidade de continuar, mesmo quando o corpo pede pausaÀs vezes, tudo que precisamos é dar um passo, depois outro, e mais um. Seguir caminhando, dançando, pulandoLembre-se: no fundo, viver nunca foi uma escolha sobre permanecer intacto, sem as marcas da passagem do tempo. 

Vamos juntos? 

Som na caixa, DJ. 

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.

Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.               Marinalda percebe que construiu uma vida inteira ...