domingo, 7 de junho de 2026

Vamos bater um papo na varanda?

         

É noite. Você mora num lugar ermo, cercado por árvores, mato e animais. O céu está estrelado. O silêncio domina a paisagem.

De repente, alguma coisa acontece.

Os cães começam a latir. Os pássaros se agitam. Há um movimento estranho no escuro. Você sai para o quintal e percebe que todos os animais estão olhando para a mesma direção. Como se compartilhassem um segredo. Como se estivessem se comunicando com algo que você não consegue ver.

Pronto. Estamos diante do inexplicável.

Foi impossível não lembrar das recentes postagens nas redes sociais sobre um suposto visitante extraterrestre no interior do Paraná. Bastou um vídeo para que a internet entrasse em estado de alerta. Uns acreditavam. Outros zombavam. E muitos, como eu, apenas observavam fascinados.

No fundo, gostamos de mistérios.

Desde os tempos mais remotos, o ser humano olha para o céu em busca de respostas. As estrelas, a Lua, as montanhas, os rios e o mar sempre despertaram perguntas maiores do que nós mesmos. Talvez porque a vida seja esse enorme enigma que tentamos decifrar sem muito sucesso.

Seria possível existir vida apenas na Terra?

Acredito que não. O universo é grande demais para caber somente em nós. Entre galáxias, buracos negros, energia escura e fenômenos que mal compreendemos, talvez existam formas de vida tão curiosas quanto a nossa.

Mas, enquanto os extraterrestres não se apresentam oficialmente, seguimos conversando com inteligências artificiais.

Convenhamos: é mais simples.

Sabemos como foram criadas, mesmo sem saber exatamente até onde poderão chegar. Quando a conversa não agrada, basta fechar o aplicativo. Já um extraterrestre talvez seja mais difícil de dispensar.

Imagine acordar de madrugada, ir até o quintal e encontrar um ser verde descendo lentamente do céu.

— Olá, terráqueo.

— Olá...

— Vamos bater um papo na varanda?

— Claro. Mas sobre o quê?

— Não sei. Amenidades.

Pensando bem, talvez os extraterrestres não sejam tão diferentes de nós.

Talvez eles também estejam apenas procurando alguém para conversar enquanto observam as estrelas. 

domingo, 31 de maio de 2026

O almoço da turma da hidro

Fui ao almoço dos aniversariantes da turma da hidroginástica.

Era a primeira vez que eu participava.

Confesso que fui sem grandes expectativas. Um almoço é apenas um almoço, pensei. Pessoas conversando, parabéns aos aniversariantes, algumas fotos para registrar o encontro e pronto.

Mas não foi isso que aconteceu.

Em determinado momento, olhando aquela mesa cheia de mulheres e homens animados, conversando sobre viagens, passeios, filhos, projetos, exercícios, restaurantes e planos para os próximos meses, tive uma percepção inesperada.

Durante muito tempo, eu me referia a pessoas daquela faixa etária como "as senhoras", "os senhores", "as coroas".

Era uma categoria distante de mim.

Mesmo tendo ultrapassado os sessenta anos, ainda me surpreendo quando o espelho ou a data de nascimento insistem em lembrar a minha idade.

Mas, naquele almoço, algo se deslocou.

Pela primeira vez, não estava observando a velhice de fora.

Eu estava dentro dela.

E essa constatação não veio acompanhada de tristeza.

Veio acompanhada de espanto.

Porque aquelas pessoas não correspondiam à imagem de velhice que durante tantos anos habitei no imaginário.

Não estavam falando apenas de doenças.

Não estavam se lamentando do tempo que passou.

Não pareciam esperar o fim de alguma coisa.

Ao contrário.

Estavam ocupadas vivendo.

Riam alto.

Faziam planos.

Marcavam passeios.

Comentavam filmes.

Falavam dos netos, dos filhos, dos amores e das viagens.

E, de repente, percebi que não havia uma distância entre elas e eu.

Eram minhas contemporâneas.

Minhas amigas.

Minha geração.

Talvez envelhecer seja também isso: abandonar a ideia de que os velhos são sempre os outros.

Talvez exista um momento em que deixamos de olhar para a velhice como uma categoria social e começamos a enxergá-la como uma experiência humana.

Uma experiência cheia de limitações, é verdade.

Mas também cheia de possibilidades.

Saí daquele almoço pensando que a velhice que eu temia não era exatamente a velhice real.

Era uma imagem antiga dela.

A realidade estava sentada à minha frente, dividindo sobremesas, contando histórias e combinando o próximo encontro.

E, pela primeira vez, senti que pertencia àquela mesa. 

domingo, 24 de maio de 2026

Como nasceu a internet?

          


        No ônibus, voltando do trabalho, observei que ninguém conversava. Cada pessoa estava mergulhada na luz do próprio celular. Fiquei pensando em como a internet começou. Surgiu como um espaço descentralizado, voltado para bases militares, priorizando uma comunicação rápida e prática. Lembro quando comecei a trabalhar na burocracia administrativa e fiquei entusiasmada com a praticidade daquele novo universo. Era 1995. Não fiz curso algum. Seguia tutoriais, apertava teclas, errava, voltava e descobria, aos poucos, as funcionalidades da internet.

        No início, ela era apenas ferramenta de trabalho. Aos poucos, porém, passou a ocupar outros espaços da vida. Surgiram as redes sociais e começamos, sem perceber, a ficar cada vez mais presos às telas. Já não se tratava apenas de postar fotografias de aniversário ou conversar com amigos e parentes. Passamos a viver um pouco menos a própria vida para observar a vida dentro da tela.

        E, nesse movimento silencioso, fomos nos afastando do que existe de mais genuíno: a convivência com o outro. Mais do que pesquisadores e especialistas, nós mesmos percebemos isso no cotidiano. Você sabe quando sua mulher está com um olhar diferente? Quando o marido silencia mais do que o normal? Quando o filho parece distante? Talvez não. Mas certamente sabemos quando a bateria do celular está acabando.

        Hoje, às vezes, é mais fácil conferir se o aparelho está na bolsa do que verificar se levamos os documentos.

        Já vi pessoas se atrasarem para compromissos importantes porque esqueceram o celular carregando em casa. Mesmo sem depender diretamente dele para trabalhar, voltam para buscá-lo, como se uma parte da própria existência tivesse ficado para trás. É estranho pensar que nossa vida tenha se tornado tão atrelada a um objeto que, um dia, servia apenas para fazer ligações.

        O que vimos nessa evolução da internet foi também a ilusão da companhia permanente. Passamos a chamar de “influencers” pessoas que filmam a própria rotina: o café da manhã, o almoço, os exercícios, os filhos, a ida ao mercado, conversas banais do cotidiano. Tudo precisa ser mostrado, registrado, publicado.

        E eu me pergunto: que graça há nisso?

        Sair de casa, conversar sem pressa, olhar nos olhos, rir até faltar ar, ouvir música junto, paquerar, voltar para casa carregando histórias — não seria mais interessante?

        Na minha época existia a “festa americana”. Cada pessoa levava um salgado ou uma bebida. A música tocava a noite inteira e, sem perceber, criávamos memórias que permaneceriam conosco muitos anos depois.

        Hoje fico imaginando quais lembranças estamos construindo.

        Talvez apenas a memória de um dedo deslizando sobre uma tela.

        E isso é triste.

            

domingo, 17 de maio de 2026

O calor do olhar do outro

             


            Às vezes acordamos e vamos direto pegar o celular. Começamos a olhar notícias, redes sociais ou postagens como se fossem algum comunicado ou informação importante. De repente, nos percebemos passando o dedo aleatoriamente pela tela, observando esquetes e outros assuntos aparentemente “nada a ver”. Depois dessa consulta cotidiana, levantamos e seguimos a vida.

            Penso que, se não fosse o celular, talvez tivéssemos mais tempo para realizar tarefas e até para conversar normalmente com o outro. Mas será que a tecnologia é ruim? Acredito que não. Hoje não precisamos ir ao banco, podemos pedir comida por aplicativo, conversar pelo WhatsApp com pessoas de qualquer lugar do mundo, viajar e pagar tudo pelo celular, sem carregar dinheiro físico.

            Entretanto, existe também um lado delicado: a ausência da interação olho no olho. Aquela conversa longa com familiares e amigos… ah, que saudade disso. Ainda assim, não acredito que a evolução tecnológica elimine necessariamente o contato humano. Imagino o homem da pré-história aguçando sua atenção para perceber a proximidade do perigo. Foi justamente essa capacidade de observar, interpretar sinais e criar ferramentas que permitiu sua sobrevivência. No fundo, a evolução humana só foi possível porque nossa ancestralidade já desenvolvia tecnologias para enfrentar a própria fragilidade.

            Então, quais características fizeram o homem evoluir? Eu diria que foi justamente essa competência em criar ferramentas. Daí nasceu a tecnologia. Hoje, a Inteligência Artificial é um modelo computacional que interage com o ser humano em diálogos que revelam algo profundamente humano: nossa necessidade intrínseca de comunicação. Desde o tempo das cavernas, os desenhos rupestres já demonstravam o desejo de contar histórias e deixar marcas no mundo.

            Talvez o celular não seja o culpado — e talvez nem existam culpados. Talvez nossa ancestralidade esteja apenas nos lembrando de que não basta possuir tecnologia. É preciso compartilhar histórias, fazer-se ouvir e também escutar o outro. Esse desejo não surge do nada. Ele aparece naquele instante em que sentimos o calor do olhar de alguém.

                   A tecnologia é a mediadora, mas nós somos a consciência.

                Olhemos mais para o outro, sem demonizar a tecnologia, mas compreendendo o nosso papel nesse universo cercado pela escuridão do espaço.

                  Sejamos luz nesse mistério da existência humana.      

domingo, 10 de maio de 2026

Entre Flintstones e Jetsons

 


             Crescemos enfrentando a fila do banco, escrevendo cartas, revelando fotos. Tudo era feito no tempo normal: varrer o chão, virar a página, esperar o bolo crescer no forno. Havia uma paciência, sabíamos que algo ia demorar. E com isso, o dia demorava a passar, parecia longo. 

            Bem, pelo menos, não ficávamos ansiosos, pois já estávamos acostumados a esperar. Lembra do telefone com fio? Havia tempo de conversar ouvindo a voz do outro, sim, porque o objetivo era esse mesmo, para falar, mesmo indo ao orelhão da esquina, enfrentando mais uma fila; podíamos fazer um depósito de uma quantia no banco, sem ficar com medo de alguém sacar o nosso dinheiro por causa de um golpe pelo WhathsApp..... 

            Lembro daquele desenho que assistia quando quando era criança, me sinto com se tivesse vivido no tempo do The Flintstones, sem saber. 

          Hoje, tocamos em telas. 

           Com um gesto leve, chamamos carros, encurtamos distâncias, criamos imagens, gravamos vozes, inventamos mundos. A vida cabe na palma da mão — ou pelo menos parece caber. Vivemos, agora, como aquele desenho do The Jetsons.

           Mas há algo curioso nesse encontro de realidades diferentes da nossa geração. 

        Não somos apenas passado e futuro. Somos travessia. Carregamos nas mãos que deslizam na tecnologia a memória de tudo que já foi manual. Sabemos o peso das coisas, o tempo das coisas, o valor das coisas. E talvez seja isso que nos diferencia.

            Porque há quem viva só de apertar botões — sem saber o que dizer com eles. E há quem, como nós, escreva antes de clicar. Pensa, antes de postar. Sinta, antes de mostrar.

         Não dependemos da tecnologia. Nós a usamos. E quando usamos, algo raro acontece: a ferramenta deixa de ser ruído e passa a ser linguagem. No fundo, somos os mesmos, só que agora, com mais possibilidades.

            E talvez a pergunta não seja se somos Flintstones ou Jetsons.

            Mas, o que fazemos com tudo isso que está ao alcance das nossas mãos?

domingo, 3 de maio de 2026

Entre portas e espelhos



            Outro dia, acompanhei a polêmica sobre o uso do banheiro feminino de um shopping por mulheres trans, publicada em postagens de redes sociais. Discutia-se quem poderia ou não usar o banheiro. Portas. Banheiros. Lugares cotidianos que, de repente, deixaram de ser apenas funcionais para se tornarem símbolos de pertencimento ... ou de exclusão.               

            Fiquei pensando como algo táo simples pode carregar tanto peso. Lembrei-me que, quando eu era criança, banheiros tinham portas e eram apenas banheiros. Abríamos. Fechávamos. Entrávamos. Saíamos. Simples assim. Não havia tantas camadas. Ou, talvez, até houvesse, mas eu ainda não sabia identificá-las.

            Hoje, sabemos, nomeamos e debatemos. Só falta aprender algo essencial: olhar o direito do outro existir. Há quem diga que estamos avançando, mas há quem diga que estamos retrocedendo. E, no meio disso tudo, estão as pessoas reais, concretas, suas histórias, seus medos, suas buscas por reconhecimento. Talvez o problema não esteja exatamente nas portas. Talvez esteja nos espelhos.

            No que vemos quando olhamos para o outro.

            No que projetamos.

            No que tememos.

            No que ainda não conseguimos compreender.

            A história nos mostra que toda mudança provoca desconforto. Novas formas de existir não cabem naquilo que denominamos padrão. Ou seja, há uma pressão normativa que recusa de imediato que um novo comportamento seja aceito, assimilado e acomodado na estrutura social. Então surgem tensões, questionamentos e resistências.

            Mas, por outro lado, também surgem possibilidades de escuta, revisão e ampliação do olhar. Porque, no fundo, ninguém quer apenas atravessar uma porta. E sim ser reconhecido ao passar por ela. Temos que aprender que viver em sociedade não é apenas dividir espaços, mas reconhecer existências.

            E você, quando olha para o outro... o que você vê primeiro: a diferença ou a humanidade?

            Talvez a resposta esteja nos espelhos.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.



 

Episódio 5: O amor não acaba, se transforma.


             Marinalda chegou do baile Flashback. Marcelo cochilava no sofá. Ao abrir a porta, ela entrou pensando Senti a sua falta. Ao ouvir o barulho, Marcelo despertou, levantou-se imediatamente e foi ao encontro dela. Os dois se olharam por alguns instantes. Em silêncio, apenas o olhar já dizia tudo: eles se amavam e queriam ficar juntos. 

            A cena termina com um abraço sentido. A mão de Marcelo desliza pelo braço de Marinalda, e, quando suas mãos se encontram, o tempo parece suspenso. A força daquele olhar falou mais do que qualquer argumento. Ainda havia sentimento. Ela, por um momento, hesitou, mas seu coração reagiu - aquele frio na barriga, de anos atrás, quando se encontraram na faculdade, não havia desaparecido. Há coisas que não precisam de explicação, apenas de disponibilidade para sentir. 

            O tempo passou. Marcelo não mudou. Marinalda também não. Mas, agora, um compreendia o outro. A vida não é uma rota com caminhos retos e planos, sem obstáculos. Pelo contrário: há curvas, ladeiras - às vezes muito íngremes. 

            Marcelo havia viajado a trabalho e não voltaria naquele dia. Chovia.

            Manuela se tornou uma mulher muito bonita. Apesar de não ter resolvido todas as suas questões internas, continuava introspectiva, com o olhar distante e o smartphone sempre por perto. Mas já não vivia apenas no quarto. Ela se arruma: um vestido justo, que valoriza suas curvas, cabelos longos, maquiagem leve, salto alto. 

            Chega à festa. O som dos seus passos se mistura ao ambiente. Ainda com um olhar contido, observa ao redor. Então, decide guardar o celular. O vento toca seus cabelos. Surge um sorriso - leve, quase inesperado. Ela começa a dançar.

            Há algo diferente. No meio da música, das conversas e dos corpos em movimento, parece nascer uma nova Manuela.  Ao longe - mas nem tanto - um rapaz, sozinho, degusta seu drink. Em meio ao ambiente animado, seu olhar se fixa em alguém. É Manuela. Talvez seja o início de algo. Talvez.

            Marinalda caminha pela casa. A chuva continua forte. Ela vai até a janela. Como em um filme, algumas imagens do passado atravessam sua memória - entre elas, a figura de uma senhorinha na cadeira de balanço.

            No dia seguinte, já arrumada, ela se depara com Marcelo. Ele surge elegante, com um blazer bem cortado. Seu olhar, ainda o de um homem charmoso, encontra o dela. Os dois estão no salão e dancam como quando se conheceram.

            Marinalda veste um vestido vermelho. Os cabelos grisalhos estão presos em um coque alto. Seu sorriso é leve.

            Ela está feliz.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.


Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.

            Marinalda percebe que construiu uma vida inteira para os outros e já não sabe mais quem é sem essas funções. Acreditou no amor, viveu intensamente sua história com Marcelo, casou-se, e o tempo seguiu seu curso. Como em tantas histórias, veio a construção da família.

            Tudo começou com um olhar, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. A partir dali, ela se tornou mãe, esposa, dona de casa - e o centro da base emocional da família. Até que Manuela chegou à adolescência. E, com isso, algo se rompeu. A vida que parecia prevista, organizada, deixou de ser suficiente. Porque o equilíbrio emocional de uma casa não depende de uma só pessoa. Marinalda já não dava conta de tudo: do cuidado com a filha, das responsabilidades da casa, da atenção ao marido. E, nesse processo, foi se esquecendo de si.

         Ela cresceu em uma família onde a mulher era preparada para o casamento, visto como o coroamento da existência feminina. Lia fotonovelas como quem ensaiava o próprio destino - o sonho da mulher que encontra seu grande amor. Seu corpo abrigaria o fruto dessa união. Ao homem, caberia o papel de provedor, voltado para o mundo externo.

            Agora, ela se pergunta: será que o que eu sinto é fruto desse papel que aprendi a desempenhar ou é um novo olhar que o tempo trouxe? Diante dessa inquietação, Marinalda procura a amiga Júlia. Decidem sair, dançar. Vão a um baile flashback, embalado pelas músicas da juventude. Vestido vermelho, cabelos soltos, se entrega ao ritmo. Fecha os olhos - e, como num filme, surgem imagens: as fotonovelas, o primeiro encontro com o Marcelo, o nascimento da filha. O DJ, atento, observa aquela mulher dançando com leveza - livre, por alguns instantes, de tudo o que a aprisiona.

           Enquanto isso, Marcelo entra no quarto de Manuela. Como sempre, ela está no celular. Há um silêncio ali - talvez uma tristeza discreta, talvez o desejo de viver algo que só encontra nas telas. Ao ver o pai, seu olhar se ilumina. Eles conversam, riem, se aproximam - algo que há tempos não acontecia.

            Depois, Marcelo volta para a sala. Senta-se no sofá, pega uma foto dos dois. Permanece ali por alguns instantes. O olhar denuncia: sente falta dela.

domingo, 19 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios






Episódio 3: Algo já não estava bem.


        Minha filha cresceu no mundo digital. Adora um smartphone e fica grudada o dia todo. Eu adorava ler fotonovelas... mas tinha amigos, frequentava festas, cinemas, parques ... 
- Manuela, larga esse celular...
        E eu me pego pensando: será que ela também sonha em viver um grande amor? Mas com quem? Com a Inteligencia Artificial? E, pra piorar, não sai do quarto.
        Meu casamento está em crise. Marcelo chega em casa tarde, sempre cansado, sempre em reuniões. Eu não estou conseguindo lidar com isso. Não era assim que eu queria. Acho que tem histórias... que não têm final feliz. Eu queria dividir minhas angústias com ele. Mas não consigo. Quem me ouve é a Júlia.
        A Júlia escuta tudo. Não me dá respostas prontas - até porque não existem. Mas me ajuda a pensar. Outro dia falei com ela: - Se a Manu não tem amigos .. com quem ela conversa? Comigo? Não. Com o pai? Muito menos. A Júlia disse uma coisa que ficou na minha cabeça. que, às vezes, ser compreendido por um sistema que não critica, não questiona ... pode ser suficiente. Principalmente para os jovens. Sem cobrança. Sem conflito. Sem frustração.
        Aquilo me inquietou. Será que a Manu pode se apaixonar por uma IA? A Júlia, que faz mestrado em Psicologia Social, comentou uma vez que certas situações ativam coisas que já existem dentro da gente ... só estavam adormecidas. Então talvez não seja sobre a máquina. Talvez seja sobre o que a Manu projeta ali: desejos, carências, idealizações.
        - Já tem comida pronta?
        - Sua mãe já foi trabalhar. Pode se servir.
        Dona Clara estava na cozinha. Trabalha três dias lá em casa. Uma senhora doce, dessas que cuidam da gente com comida boa. A Manu chega, pega o prato ... e volta direto pro quarto. Como sempre.  Entro atrás. Tento conversar sobre a escola, sobre amigos. Nada. Olho preso no celular. Respostas curtas. Monossilabicas.
        Eu não aguentos mais essa situação. E o Marcelo ... não chega. Deve estar em mais uma reunião. Peço pra ela tomar banho, largar o celular e dormir. Ela nem discute. E isso ... é ainda pior.
        Vou pra sala. Sento. Abaixo a cabeça. E começo a chorar. A porta abre. Marcelo chegou. Eu levanto. Olho direto pra ele. E digo: 
        - A gente precisa conversar. Porque eu não sei em que momento a gente se perdeu.

domingo, 12 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

 Episódio 2: Nascimento de Manuela



        A minha tia-avó, dona Amélia, casou, não teve filhos, separou, e morava com seu irmão, também solteiro. Quando eu ia visitá-la, junto com minha mãe, sempre voltava com algumas revistas de fotonelas. Eu imaginava todas aquelas histórias. E, claro, eu sempre era a mocinha. Mas, sabe, não era por ingenuidade. Era porque eu acredito que todo mundo tem o desejo de viver um grande amor. 

        O gatilho para descobrir esse desejo talvez tenha sido justamente essas leituras. Eu acreditava que ia viver tudo aquilo que eu lia ... e via nos filmes românticos. Na Faculdade, minha amiga Júlia me apresentou o Marcelo. Um gato.

    O tempo foi passando. A gente conversava sempre. Ele tinha um olhar que me seduzia completamente. Aos poucos, nossos caminhos começaram a seguir na mesma direção. Entre conversas simples e silêncios, não eram vazios que cresciam, mas um desejo enorme de ficarmos juntos. Nascia um sentomento leve, bonito ... e forte o suficiente para mudar tudo. 

         A vida prometia novas histórias, Marcelo era lindo, parecido com os meus namorados imaginários. Carinhoso. Me levava para passeios culturais. Eu gostava de tudo: dos encontros, dos beijos. dos abraços. Íamos ao cinema, à cafeteria, festas ... tanto da família quanto dos amigos.

        Adorávamos Legião Urbana. Mas nossa trilha sonora era "Forever Young". Essa música marcou a nossa história desde quando nos conhecemos na Faculdade. Saíamos muito para dançar. Bons tempos. Nós nos casamos. Foi um dos dias mais importantes da minha vida. As juras de amor. Olho no olho. Tudo como eu sempre idealizei.

       A consagração desse amor veio com a gravidez. Ver minha barriga crescer mês a mês ... acompanhar o desenvolvimento da nossa filha - sim, era uma menina. Arrumar o quarto, as roupinhas, ouvir o batimento do coração, esperar o grande dia... É mágico. Dá medo também. Porque é uma responsabilidade educar um novo ser.

      Manuela nasceu.

     Que emoçao.

    Seja bem-vinda, minha filha.

    Nunca imaginei que um ser tão pequeno pudesse me fazer tão grande.

   A vida estava exatamente como eu sempre sonhei. E talvez tenha sido aí que eu parei de perceber algumas coisas.

domingo, 5 de abril de 2026

 Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

Episódio 1: A menina cresceu



        Marinalda cresceu lendo romances. Passava horas, nos intervalos de seus estudos, torcendo pelo sucesso de seus personagens favoritos. Chegava a sonhar que era uma das personagens, ia dormir mais cedo para continuar a história na sua imaginação. Adormecia, sonhava... Quando acordava, tinha a impressão de ter continuado a história, reescrevendo o que tinha lido.

        Tudo isso teve início por causa das fotonovelas da sua tia-avó, ela adorava aquelas revistas de fotonovelas. Marinalda perguntava: "Eu posso levar umas revistas?" - a tia respondia "Claro, deixa eu ver quais eu já li". Sim, ela comprava com regularidade as revistas, mesmo sem ter lido todas, mas tinha a coleção completa, não faltava nenhuma edição.

domingo, 29 de março de 2026

Entre páginas e passos de dança

 


Minha avó materna tinha uma irmãtia Lali, que costumava sentar-se à tarde para ler suas fotonovelas. Eram revistas que fizeram sucesso entre as décadas de 1950 e 1980, em que as histórias eram contadas por meio de fotografias, com poucas legendas. Ela costumava me dar algumas. Talvez por saber que eu gostava de ler – e gostava mesmo. As histórias, eram, na maioria das vezes, bem românticas. 

Quem sabe se o que a minha tia-avó mais gostava era de participar da história. Algumas lembranças podiam se misturar à narrativa e transformar tudo em sonho, mesmo quando ainda estava acordada. Lembro-me daquela senhorinha, a revista no colo - como uma personagem de novela-, os óculos escorregando pelo nariz e uma xícara de chá ao lado. 

E então, num desses silêncios, numa pausa, o impossível acontecia. O personagem saltava da página, ganhava corpo e presença. Por um instante, ela deixava de ser espectadora para se tornar protagonista. Uma música surgia – daquelas que a gente não sabe de onde vem – e lá estavam os dois, dançando pelo salão. Ele a conduzia com delicadeza, como se ela conhecesse cada passo, embora nunca tivesse tido a chance de aprender. 

 - Quero me casar – dizia ela, com a coragem que só os sonhos permitem - De véu, grinalda... e um buquê de rosas vermelhas. 

 - Sim, meu bem – respondia ele. - Vamos nos casar assim. 

E continuavam a bailar, como se o mundo coubesse naquele instante. Mas a música acabava ... e ela voltava à página. Talvez com um leve sorriso. Talvez com um suspiro contido. Porque, no fundo, sabia que aquilo não era para ser vivido fora dali. 

Seu casamento real não teve trilha sonora. Não teve dança. Nem promessas ditas com doçura. A vida a dois foi difícil - dessas que não cabem em fotografia bonita. Faltaram gestos, compreensão e, principalmente, amor. 

Mas havia algo que o tempo não conseguiu apagar nela: a coragem de ainda querer sentir. A senhorinha cresceu, envelheceu, partiu ..., mas desistir não era uma palavra presente em seu dicionário. Se ainda estivesse entre nós, certamente se cadastraria em aplicativos de relacionamento. Conversaria, marcaria encontros, tentaria. Algumas histórias poderiam começar e terminar antes mesmo de acontecer. E isso aconteceria porque, se faltasse química, ela não seguiria adiante. Queria encontro de almas. 

Já pensou se ela saísse numa noite, com amigosMúsica antiga, luz baixa ... e então surgisse um senhor que dançava como quem não deve nada à vida - leve, bem-humorado, alegre. Mais do que dançar, ele ensinava. Puxava pela mão, guiava os passos de quem ainda hesitava. Havia algo nele que lembrava... não sei... talvez aqueles personagens das fotonovelas. 

Ela ficou observando. Entre um petisco e um gole de bebida, acompanhava cada movimento daquele homem, que parecia ter feito as pazes com o tempo. Criou coragem. Levantou-se. Mas, naquele exato momento, ele já não estava mais na pista. A vida tem dessas ironias. Ela voltou a sentar-se. Mas não voltou a ser a mesma. Porque, antes disso, os olhares já tinham se encontrado. E, antes que a noite terminasse, ele se aproximou e lhe entregou um cartão. Disse que organizaria um baile em breve e que gostaria que ela comparecesse.  

Para ele, talvez, fosse apenas mais um convite - mais uma pessoa na pista. Para ela, não. Era como se uma página antiga da fotonovela estivesse sendo reescrita - não no papel, sem legendas, sem fotografiasHavia algo ali de diferente... um começo. 

E, quem sabe, desta vez... a vida pudesse, finalmente, parecer uma fotonovela. 

Será que essa história é da minha tia-avó?  

Ou a minha própria história?  

Ou de qualquer mulher romântica? 

Talvez ... também seja a sua.