Os 15 minutos na tela

            

           Na era da internet, nasceu um personagem curioso: o "influencer". Não veio da literatura nem do teatro, mas brotou da tela do celular, esse pequeno oráculo que carregamos no bolso. Ele habita nas redes sociais, onde os algoritmos — entidades invisíveis e caprichosas — decidem quem será visto, quem será seguido e quem permanecerá no limbo do silêncio digital. Basta um clique distraído, desses feitos entre um gole de café e outro, e o mundo se oferece em sugestões: imagens, vídeos, escândalos, risos rápidos.

        O que chama atenção? Por que viraliza? Talvez porque o cardápio seja generoso e raso. Há fofocas, crises públicas de celebridades ou subcelebridades, tropeços morais improvisadas, esquetes sobre acontecimentos corriqueiros da convivência entre amigos e familiares. Há cenas retiradas da vida comum — um avião, um corredor, um assento disputado. Uma mulher que não cede o lugar para uma criança em birra; uma montanha, uma trilha, um jovem abandonado pela amiga na caminhada ... Viram manchetes, debates, julgamento público. Em poucas horas, o cotidiano vira espetáculo; em poucos dias, produto.

      A cena se multiplica, "influencers" reproduzem diversos episódios, interpretam personagens, reencenam falas, adicionam trilhas sonoras e opiniões inflamadas. O indivíduo, antes anônimo, ganha seus quinze minutos de fama. Seguidores surgem, contratos aparecem, a vida privada se transforma em vitrine. Tudo vira conteúdo. Tudo vende. Até o desconforto.

           É assim que fragmentos da vida real são capturados, editados e embalados para consumo rápido.   Um mercado se move: criadores de conteúdo, marcas, plataformas. As big techs enriquecem no silêncio de seus servidores; alguns "influencers" enriquecem diante das câmeras. Jovens milionários surgem como personagens de um conto moderno — sem fadas, mas com filtros; sem castelos, mas com mansões exibidas em stories.

       A geração mais jovem observa, aprende e deseja. Ostentação vira método, sucesso vira atalho. Carros luxuosos, viagens internacionais, jatinhos particulares, tudo registrado pelo celular como prova de uma felicidade irretocável. Milhares acompanham religiosamente cada passo, como quem segue um evangelho atualizado a cada vinte e quatro horas. Pouco se pergunta sobre o que fica fora do enquadramento.

       Enquanto isso, estudar, ler um livro ou dedicar-se ao silêncio passou a soar como esforço excessivo. O conhecimento, comprimido em vídeos curtos, perde densidade. A tecnologia, que poderia ampliar horizontes, muitas vezes estreita o olhar. Que tipo de influência estamos oferecendo aos jovens? Que ilusão desejam viver quando deslizam o dedo pela tela?

      Ilusão, sim. Relações vazias, alegrias cuidadosamente ensaiadas, sorrisos que existem mais para serem postados do que sentidos. Lembro-me de já ter lido que as ilusões não deixam de existir só porque sabemos que são ilusões. Elas continuam determinando reações. Woody Allen entendeu bem isso no filme A rosa púrpura do Cairo, quando a personagem atravessa a tela para fugir de uma vida insuportável.

        Talvez estejamos fazendo o mesmo. Entrando, sem hesitação, na tela do celular. Não para assistir à ficção, mas para viver dentro dela — acreditando que ali, entre likes e seguidores, exista alguma forma de salvação.

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