Rosa ou rosa choque, eis a questão!
Na canção Cor de Rosa Choque, Rita Lee avisa, quase como quem deixa um bilhete na porta: “sexo frágil não foge à luta, e nem só de cama vive a mulher”. Não basta ser rosa — suave, dócil, mistura comportada de vermelho com branco. É preciso ser choque: intenso, elétrico, uma cor vibrante que não pede licença ao olhar.
Assistindo hoje à minissérie sobre Ângela Diniz, esse rosa ganha contornos mais fortes. Um vermelho mais aceso, contaminado por azul e roxo — cores de quem vive em curto-circuito com o mundo. Ângela era assim: inquieta, incômoda, uma mulher que não cabia no tom pastel reservado às mulheres de sua época.
Em 1976, eu tinha treze anos e uma inocência intacta. Sonhava com o menino mais bonito da escola, com galãs de novela, com beijos que só existiam no cinema. Enquanto isso, a televisão exauria a notícia do assassinato de Ângela Diniz e, depois, o julgamento de Doca Street. Em casa, minha mãe, tias e avó — mulheres acostumadas a suportar violências masculinas, criavam os filhos, administravam a casa, conviviam com homens por vezes violentos. Não comentavam. O silêncio também era uma forma de sobrevivência.
Cinco décadas depois, ao revisitar essa história, o que me espanta é a liberdade de Ângela Diniz. Em um tempo em que mulher separada carregava um estigma social, ela rompeu um casamento de nove anos, com três filhos, e não se escondeu. Não pediu desculpas por existir fora do roteiro. Não se encolheu diante do julgamento alheio. Pagou com a vida o preço de enfrentar estereótipos e preconceitos.
Foi assassinada pelo machismo travestido de amor. No tribunal, a tese da “defesa da honra” tentou transformar o crime em gesto passional, como se o corpo de uma mulher fosse extensão de parte do homem. Como se a rejeição fosse uma afronta imperdoável. Foi preciso que feministas gritassem o óbvio — quem ama, não mata — para que o julgamento fosse anulado e Doca Street, finalmente, condenado.
Há uma lenda judaica que narra a existência de uma mulher antes de Eva. Chamada de Lilith, fora criada do mesmo barro que Adão, não de sua costela. Companheira possível, mas indomável. Escolheu partir do Éden por não aceitar a submissão. Desde então, somos pressionadas para aceitar o papel de costela: um corpo “parte”, nunca inteiro. Corpo de outro, nunca o nosso.
Um grito ecoa hoje diante dos crimes de feminicídio:
Sabemos andar sozinhas.
Não nos matem.
Não nos atropelem.
Não nos arrastem por debaixo do carro.
Queremos apenas o que sempre foi nosso: o direito de sermos livres.

Queremos apenas o que sempre foi nosso: o direito de sermos livres. ❤️
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