Conto O céu azul - a construção do sentido

        

        Ler vai além da decodificação das palavras. Só podemos considerar que o texto foi lido quando o leitor interage com o mesmo, há uma troca de ideias entre o autor e seu interlocutor. Através das palavras escolhidas, dos personagens, do espaço, das ações, do enredo, tudo faz parte do percurso para o entendimento do texto.
        No caso do conto O céu azul, sobre a professora Cristina e seu aluno Gabriel, narrativa ambientada na cidade do Rio de Janeiro, especificamente numa comunidade carente e dominada pelo tráfico de drogas, a escolha do título não foi aleatória, serviu para contrastar com o final trágico.
        Esse contraste percorre todo o texto da narrativa, representando um conflito a ser resolvido pelo leitor. Nessa busca de chegar à descoberta do conflito, vai trazendo elementos de composição da  rotina das personagens. O texto dialoga com a poesia de Vinícius de Moraes, a intertextualidade, quando faz uma ironia entre as casas, a do poeta e a do Gabriel .
        Ao apresentar a cena final da visita da professora Cristina à casa do seu aluno, modifica-se a abordagem do tempo, já não há o céu azul, a claridade.
        O contexto inicia poderia orientar para um texto que falasse mais sobre questões educacionais dentro do muro da escola, com professores, alunos e funcionários, sistema de ensino, gestão, verbas, governo, etc. Porém, de acordo com as palavras escolhidas, o sentido das frases e a relação das mesmas com outras frases do texto, o leitor foi sendo conduzido a enveredar por outros caminhos diferentes que somente a inferência da leitura do primeiro parágrafo poderia expressar.
       Ler é exatamente isso, descobrir pistas nesses caminhos desconhecidos, mas ao mesmo tempo conhecidos, das palavras e ir decifrando o enigma, como já dizia Drummond "Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra./E te pergunta, sem interesse pela resposta,/Pobre ou terrível que lhe deres:/-Trouxeste a chave?" 
        O contraste entre dia ensolarado e a chuva no final do texto significa a mudança de vida das personagens. Nesse momento, não há poesia, não há alegria, sonhos, esperanças, era como se a realidade de sofrimento, perdas, sacrifícios, violência viesse à tona, portanto, não caberia mais o céu azul. 
        A casa da poesia de Vinícius de Moraes é para celebrar a construção de uma casa. No conto em tela é uma casa que representa a violência dentro de uma comunidade. Bem diferente do esmero da casa do poeta, era perfurada e um desses tiros levou a avó do Gabriel, não adiantando ter paredes, pois não protegeram ninguém.
                         




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