quarta-feira, 29 de abril de 2026

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.



 

Episódio 5: O amor não acaba, se transforma.


             Marinalda chegou do baile Flashback. Marcelo cochilava no sofá. Ao abrir a porta, ela entrou pensando Senti a sua falta. Ao ouvir o barulho, Marcelo despertou, levantou-se imediatamente e foi ao encontro dela. Os dois se olharam por alguns instantes. Em silêncio, apenas o olhar já dizia tudo: eles se amavam e queriam ficar juntos. 

            A cena termina com um abraço sentido. A mão de Marcelo desliza pelo braço de Marinalda, e, quando suas mãos se encontram, o tempo parece suspenso. A força daquele olhar falou mais do que qualquer argumento. Ainda havia sentimento. Ela, por um momento, hesitou, mas seu coração reagiu - aquele frio na barriga, de anos atrás, quando se encontraram na faculdade, não havia desaparecido. Há coisas que não precisam de explicação, apenas de disponibilidade para sentir. 

            O tempo passou. Marcelo não mudou. Marinalda também não. Mas, agora, um compreendia o outro. A vida não é uma rota com caminhos retos e planos, sem obstáculos. Pelo contrário: há curvas, ladeiras - às vezes muito íngremes. 

            Marcelo havia viajado a trabalho e não voltaria naquele dia. Chovia.

            Manuela se tornou uma mulher muito bonita. Apesar de não ter resolvido todas as suas questões internas, continuava introspectiva, com o olhar distante e o smartphone sempre por perto. Mas já não vivia apenas no quarto. Ela se arruma: um vestido justo, que valoriza suas curvas, cabelos longos, maquiagem leve, salto alto. 

            Chega à festa. O som dos seus passos se mistura ao ambiente. Ainda com um olhar contido, observa ao redor. Então, decide guardar o celular. O vento toca seus cabelos. Surge um sorriso - leve, quase inesperado. Ela começa a dançar.

            Há algo diferente. No meio da música, das conversas e dos corpos em movimento, parece nascer uma nova Manuela.  Ao longe - mas nem tanto - um rapaz, sozinho, degusta seu drink. Em meio ao ambiente animado, seu olhar se fixa em alguém. É Manuela. Talvez seja o início de algo. Talvez.

            Marinalda caminha pela casa. A chuva continua forte. Ela vai até a janela. Como em um filme, algumas imagens do passado atravessam sua memória - entre elas, a figura de uma senhorinha na cadeira de balanço.

            No dia seguinte, já arrumada, ela se depara com Marcelo. Ele surge elegante, com um blazer bem cortado. Seu olhar, ainda o de um homem charmoso, encontra o dela. Os dois estão no salão e dancam como quando se conheceram.

            Marinalda veste um vestido vermelho. Os cabelos grisalhos estão presos em um coque alto. Seu sorriso é leve.

            Ela está feliz.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.


Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.

            Marinalda percebe que construiu uma vida inteira para os outros e já não sabe mais quem é sem essas funções. Acreditou no amor, viveu intensamente sua história com Marcelo, casou-se, e o tempo seguiu seu curso. Como em tantas histórias, veio a construção da família.

            Tudo começou com um olhar, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. A partir dali, ela se tornou mãe, esposa, dona de casa - e o centro da base emocional da família. Até que Manuela chegou à adolescência. E, com isso, algo se rompeu. A vida que parecia prevista, organizada, deixou de ser suficiente. Porque o equilíbrio emocional de uma casa não depende de uma só pessoa. Marinalda já não dava conta de tudo: do cuidado com a filha, das responsabilidades da casa, da atenção ao marido. E, nesse processo, foi se esquecendo de si.

         Ela cresceu em uma família onde a mulher era preparada para o casamento, visto como o coroamento da existência feminina. Lia fotonovelas como quem ensaiava o próprio destino - o sonho da mulher que encontra seu grande amor. Seu corpo abrigaria o fruto dessa união. Ao homem, caberia o papel de provedor, voltado para o mundo externo.

            Agora, ela se pergunta: será que o que eu sinto é fruto desse papel que aprendi a desempenhar ou é um novo olhar que o tempo trouxe? Diante dessa inquietação, Marinalda procura a amiga Júlia. Decidem sair, dançar. Vão a um baile flashback, embalado pelas músicas da juventude. Vestido vermelho, cabelos soltos, se entrega ao ritmo. Fecha os olhos - e, como num filme, surgem imagens: as fotonovelas, o primeiro encontro com o Marcelo, o nascimento da filha. O DJ, atento, observa aquela mulher dançando com leveza - livre, por alguns instantes, de tudo o que a aprisiona.

           Enquanto isso, Marcelo entra no quarto de Manuela. Como sempre, ela está no celular. Há um silêncio ali - talvez uma tristeza discreta, talvez o desejo de viver algo que só encontra nas telas. Ao ver o pai, seu olhar se ilumina. Eles conversam, riem, se aproximam - algo que há tempos não acontecia.

            Depois, Marcelo volta para a sala. Senta-se no sofá, pega uma foto dos dois. Permanece ali por alguns instantes. O olhar denuncia: sente falta dela.

domingo, 19 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios






Episódio 3: Algo já não estava bem.


        Minha filha cresceu no mundo digital. Adora um smartphone e fica grudada o dia todo. Eu adorava ler fotonovelas... mas tinha amigos, frequentava festas, cinemas, parques ... 
- Manuela, larga esse celular...
        E eu me pego pensando: será que ela também sonha em viver um grande amor? Mas com quem? Com a Inteligencia Artificial? E, pra piorar, não sai do quarto.
        Meu casamento está em crise. Marcelo chega em casa tarde, sempre cansado, sempre em reuniões. Eu não estou conseguindo lidar com isso. Não era assim que eu queria. Acho que tem histórias... que não têm final feliz. Eu queria dividir minhas angústias com ele. Mas não consigo. Quem me ouve é a Júlia.
        A Júlia escuta tudo. Não me dá respostas prontas - até porque não existem. Mas me ajuda a pensar. Outro dia falei com ela: - Se a Manu não tem amigos .. com quem ela conversa? Comigo? Não. Com o pai? Muito menos. A Júlia disse uma coisa que ficou na minha cabeça. que, às vezes, ser compreendido por um sistema que não critica, não questiona ... pode ser suficiente. Principalmente para os jovens. Sem cobrança. Sem conflito. Sem frustração.
        Aquilo me inquietou. Será que a Manu pode se apaixonar por uma IA? A Júlia, que faz mestrado em Psicologia Social, comentou uma vez que certas situações ativam coisas que já existem dentro da gente ... só estavam adormecidas. Então talvez não seja sobre a máquina. Talvez seja sobre o que a Manu projeta ali: desejos, carências, idealizações.
        - Já tem comida pronta?
        - Sua mãe já foi trabalhar. Pode se servir.
        Dona Clara estava na cozinha. Trabalha três dias lá em casa. Uma senhora doce, dessas que cuidam da gente com comida boa. A Manu chega, pega o prato ... e volta direto pro quarto. Como sempre.  Entro atrás. Tento conversar sobre a escola, sobre amigos. Nada. Olho preso no celular. Respostas curtas. Monossilabicas.
        Eu não aguentos mais essa situação. E o Marcelo ... não chega. Deve estar em mais uma reunião. Peço pra ela tomar banho, largar o celular e dormir. Ela nem discute. E isso ... é ainda pior.
        Vou pra sala. Sento. Abaixo a cabeça. E começo a chorar. A porta abre. Marcelo chegou. Eu levanto. Olho direto pra ele. E digo: 
        - A gente precisa conversar. Porque eu não sei em que momento a gente se perdeu.

domingo, 12 de abril de 2026

Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

 Episódio 2: Nascimento de Manuela



        A minha tia-avó, dona Amélia, casou, não teve filhos, separou, e morava com seu irmão, também solteiro. Quando eu ia visitá-la, junto com minha mãe, sempre voltava com algumas revistas de fotonelas. Eu imaginava todas aquelas histórias. E, claro, eu sempre era a mocinha. Mas, sabe, não era por ingenuidade. Era porque eu acredito que todo mundo tem o desejo de viver um grande amor. 

        O gatilho para descobrir esse desejo talvez tenha sido justamente essas leituras. Eu acreditava que ia viver tudo aquilo que eu lia ... e via nos filmes românticos. Na Faculdade, minha amiga Júlia me apresentou o Marcelo. Um gato.

    O tempo foi passando. A gente conversava sempre. Ele tinha um olhar que me seduzia completamente. Aos poucos, nossos caminhos começaram a seguir na mesma direção. Entre conversas simples e silêncios, não eram vazios que cresciam, mas um desejo enorme de ficarmos juntos. Nascia um sentomento leve, bonito ... e forte o suficiente para mudar tudo. 

         A vida prometia novas histórias, Marcelo era lindo, parecido com os meus namorados imaginários. Carinhoso. Me levava para passeios culturais. Eu gostava de tudo: dos encontros, dos beijos. dos abraços. Íamos ao cinema, à cafeteria, festas ... tanto da família quanto dos amigos.

        Adorávamos Legião Urbana. Mas nossa trilha sonora era "Forever Young". Essa música marcou a nossa história desde quando nos conhecemos na Faculdade. Saíamos muito para dançar. Bons tempos. Nós nos casamos. Foi um dos dias mais importantes da minha vida. As juras de amor. Olho no olho. Tudo como eu sempre idealizei.

       A consagração desse amor veio com a gravidez. Ver minha barriga crescer mês a mês ... acompanhar o desenvolvimento da nossa filha - sim, era uma menina. Arrumar o quarto, as roupinhas, ouvir o batimento do coração, esperar o grande dia... É mágico. Dá medo também. Porque é uma responsabilidade educar um novo ser.

      Manuela nasceu.

     Que emoçao.

    Seja bem-vinda, minha filha.

    Nunca imaginei que um ser tão pequeno pudesse me fazer tão grande.

   A vida estava exatamente como eu sempre sonhei. E talvez tenha sido aí que eu parei de perceber algumas coisas.

domingo, 5 de abril de 2026

 Minissérie Entre páginas e passos de dança - parte 2, no total de 5 episódios

Episódio 1: A menina cresceu



        Marinalda cresceu lendo romances. Passava horas, nos intervalos de seus estudos, torcendo pelo sucesso de seus personagens favoritos. Chegava a sonhar que era uma das personagens, ia dormir mais cedo para continuar a história na sua imaginação. Adormecia, sonhava... Quando acordava, tinha a impressão de ter continuado a história, reescrevendo o que tinha lido.

        Tudo isso teve início por causa das fotonovelas da sua tia-avó, ela adorava aquelas revistas de fotonovelas. Marinalda perguntava: "Eu posso levar umas revistas?" - a tia respondia "Claro, deixa eu ver quais eu já li". Sim, ela comprava com regularidade as revistas, mesmo sem ter lido todas, mas tinha a coleção completa, não faltava nenhuma edição.