domingo, 29 de março de 2026

Entre páginas e passos de dança

 


Minha avó materna tinha uma irmãtia Lali, que costumava sentar-se à tarde para ler suas fotonovelas. Eram revistas que fizeram sucesso entre as décadas de 1950 e 1980, em que as histórias eram contadas por meio de fotografias, com poucas legendas. Ela costumava me dar algumas. Talvez por saber que eu gostava de ler – e gostava mesmo. As histórias, eram, na maioria das vezes, bem românticas. 

Quem sabe se o que a minha tia-avó mais gostava era de participar da história. Algumas lembranças podiam se misturar à narrativa e transformar tudo em sonho, mesmo quando ainda estava acordada. Lembro-me daquela senhorinha, a revista no colo - como uma personagem de novela-, os óculos escorregando pelo nariz e uma xícara de chá ao lado. 

E então, num desses silêncios, numa pausa, o impossível acontecia. O personagem saltava da página, ganhava corpo e presença. Por um instante, ela deixava de ser espectadora para se tornar protagonista. Uma música surgia – daquelas que a gente não sabe de onde vem – e lá estavam os dois, dançando pelo salão. Ele a conduzia com delicadeza, como se ela conhecesse cada passo, embora nunca tivesse tido a chance de aprender. 

 - Quero me casar – dizia ela, com a coragem que só os sonhos permitem - De véu, grinalda... e um buquê de rosas vermelhas. 

 - Sim, meu bem – respondia ele. - Vamos nos casar assim. 

E continuavam a bailar, como se o mundo coubesse naquele instante. Mas a música acabava ... e ela voltava à página. Talvez com um leve sorriso. Talvez com um suspiro contido. Porque, no fundo, sabia que aquilo não era para ser vivido fora dali. 

Seu casamento real não teve trilha sonora. Não teve dança. Nem promessas ditas com doçura. A vida a dois foi difícil - dessas que não cabem em fotografia bonita. Faltaram gestos, compreensão e, principalmente, amor. 

Mas havia algo que o tempo não conseguiu apagar nela: a coragem de ainda querer sentir. A senhorinha cresceu, envelheceu, partiu ..., mas desistir não era uma palavra presente em seu dicionário. Se ainda estivesse entre nós, certamente se cadastraria em aplicativos de relacionamento. Conversaria, marcaria encontros, tentaria. Algumas histórias poderiam começar e terminar antes mesmo de acontecer. E isso aconteceria porque, se faltasse química, ela não seguiria adiante. Queria encontro de almas. 

Já pensou se ela saísse numa noite, com amigosMúsica antiga, luz baixa ... e então surgisse um senhor que dançava como quem não deve nada à vida - leve, bem-humorado, alegre. Mais do que dançar, ele ensinava. Puxava pela mão, guiava os passos de quem ainda hesitava. Havia algo nele que lembrava... não sei... talvez aqueles personagens das fotonovelas. 

Ela ficou observando. Entre um petisco e um gole de bebida, acompanhava cada movimento daquele homem, que parecia ter feito as pazes com o tempo. Criou coragem. Levantou-se. Mas, naquele exato momento, ele já não estava mais na pista. A vida tem dessas ironias. Ela voltou a sentar-se. Mas não voltou a ser a mesma. Porque, antes disso, os olhares já tinham se encontrado. E, antes que a noite terminasse, ele se aproximou e lhe entregou um cartão. Disse que organizaria um baile em breve e que gostaria que ela comparecesse.  

Para ele, talvez, fosse apenas mais um convite - mais uma pessoa na pista. Para ela, não. Era como se uma página antiga da fotonovela estivesse sendo reescrita - não no papel, sem legendas, sem fotografiasHavia algo ali de diferente... um começo. 

E, quem sabe, desta vez... a vida pudesse, finalmente, parecer uma fotonovela. 

Será que essa história é da minha tia-avó?  

Ou a minha própria história?  

Ou de qualquer mulher romântica? 

Talvez ... também seja a sua. 

domingo, 22 de março de 2026

As pernas que falam sobre o tempo


Já pensaram em quantas histórias passaram pelos movimentos das nossas pernas? Se não fossem elas, o que diríamos dos lugares visitados? Há pernas que carregam em suas silhuetas os caminhos percorridos - cada marca do tempo guarda um período intenso da vida. 

Era um caminhar tranquilo, um dançar festivo. Quase como um mapa de uma vida que, na época, a gente não pensava muito - apenas vivia. Sem limitesQualquer ritmo servia: samba, bolero, tango, rock, axé, pagode. E nas festas de flashback ... ah, ali elas reinavam. Passinhos coreografados, risos soltos, o corpo obedecendo à música sem esforço. 

No futebol, são elas que fazem nascer aquele drible bonito que arranca gritos e alegria dos torcedoresMúsculos, articulações, movimento. Somos livres quando ela nos leva para  e para Com o tempo, porém, a marcha muda. Fica mais lenta, às vezes cansada - mas ainda segue 

E até nas lendas elas aparecem. Em Recife, existe a famosa história da Perna Cabeluda, que assustava moradores e acabou se tornando símbolo dos tempos duros da nossa história. 

Varizes? Joelho? Artrose? As marcas que vemos hoje são, muitas vezes, lembranças silenciosas de uma vida que se moveu. O tempo pode ser implacável, mas a vontade de continuar, não.  

Pernas grossas, magras, fortes, delicadas, rápidas ou vagarosas. Algumas saltitam, outras, precisam de apoio para cada passo. Mas nenhuma esquece o que é seguir. São elas que empurram o pedal da bicicleta, que sustentam o corpo na subida, que nos levam até um pôr do sol qualquer – desses que fazem tudo parecer ter valido a pena.  

Como não amar essas pernas cansadas e cheias de marcas? Elas só confirmam que o valor das coisas está na simplicidade de continuar, mesmo quando o corpo pede pausaÀs vezes, tudo que precisamos é dar um passo, depois outro, e mais um. Seguir caminhando, dançando, pulandoLembre-se: no fundo, viver nunca foi uma escolha sobre permanecer intacto, sem as marcas da passagem do tempo. 

Vamos juntos? 

Som na caixa, DJ. 

Minissérie "Entre páginas e passos de dança.

Episódio 4: Eles ainda estavam juntos ... mas já não estavam no mesmo lugar.               Marinalda percebe que construiu uma vida inteira ...