domingo, 31 de maio de 2026

O almoço da turma da hidro

Fui ao almoço dos aniversariantes da turma da hidroginástica.

Era a primeira vez que eu participava.

Confesso que fui sem grandes expectativas. Um almoço é apenas um almoço, pensei. Pessoas conversando, parabéns aos aniversariantes, algumas fotos para registrar o encontro e pronto.

Mas não foi isso que aconteceu.

Em determinado momento, olhando aquela mesa cheia de mulheres e homens animados, conversando sobre viagens, passeios, filhos, projetos, exercícios, restaurantes e planos para os próximos meses, tive uma percepção inesperada.

Durante muito tempo, eu me referia a pessoas daquela faixa etária como "as senhoras", "os senhores", "as coroas".

Era uma categoria distante de mim.

Mesmo tendo ultrapassado os sessenta anos, ainda me surpreendo quando o espelho ou a data de nascimento insistem em lembrar a minha idade.

Mas, naquele almoço, algo se deslocou.

Pela primeira vez, não estava observando a velhice de fora.

Eu estava dentro dela.

E essa constatação não veio acompanhada de tristeza.

Veio acompanhada de espanto.

Porque aquelas pessoas não correspondiam à imagem de velhice que durante tantos anos habitei no imaginário.

Não estavam falando apenas de doenças.

Não estavam se lamentando do tempo que passou.

Não pareciam esperar o fim de alguma coisa.

Ao contrário.

Estavam ocupadas vivendo.

Riam alto.

Faziam planos.

Marcavam passeios.

Comentavam filmes.

Falavam dos netos, dos filhos, dos amores e das viagens.

E, de repente, percebi que não havia uma distância entre elas e eu.

Eram minhas contemporâneas.

Minhas amigas.

Minha geração.

Talvez envelhecer seja também isso: abandonar a ideia de que os velhos são sempre os outros.

Talvez exista um momento em que deixamos de olhar para a velhice como uma categoria social e começamos a enxergá-la como uma experiência humana.

Uma experiência cheia de limitações, é verdade.

Mas também cheia de possibilidades.

Saí daquele almoço pensando que a velhice que eu temia não era exatamente a velhice real.

Era uma imagem antiga dela.

A realidade estava sentada à minha frente, dividindo sobremesas, contando histórias e combinando o próximo encontro.

E, pela primeira vez, senti que pertencia àquela mesa. 

domingo, 24 de maio de 2026

Como nasceu a internet?

          


        No ônibus, voltando do trabalho, observei que ninguém conversava. Cada pessoa estava mergulhada na luz do próprio celular. Fiquei pensando em como a internet começou. Surgiu como um espaço descentralizado, voltado para bases militares, priorizando uma comunicação rápida e prática. Lembro quando comecei a trabalhar na burocracia administrativa e fiquei entusiasmada com a praticidade daquele novo universo. Era 1995. Não fiz curso algum. Seguia tutoriais, apertava teclas, errava, voltava e descobria, aos poucos, as funcionalidades da internet.

        No início, ela era apenas ferramenta de trabalho. Aos poucos, porém, passou a ocupar outros espaços da vida. Surgiram as redes sociais e começamos, sem perceber, a ficar cada vez mais presos às telas. Já não se tratava apenas de postar fotografias de aniversário ou conversar com amigos e parentes. Passamos a viver um pouco menos a própria vida para observar a vida dentro da tela.

        E, nesse movimento silencioso, fomos nos afastando do que existe de mais genuíno: a convivência com o outro. Mais do que pesquisadores e especialistas, nós mesmos percebemos isso no cotidiano. Você sabe quando sua mulher está com um olhar diferente? Quando o marido silencia mais do que o normal? Quando o filho parece distante? Talvez não. Mas certamente sabemos quando a bateria do celular está acabando.

        Hoje, às vezes, é mais fácil conferir se o aparelho está na bolsa do que verificar se levamos os documentos.

        Já vi pessoas se atrasarem para compromissos importantes porque esqueceram o celular carregando em casa. Mesmo sem depender diretamente dele para trabalhar, voltam para buscá-lo, como se uma parte da própria existência tivesse ficado para trás. É estranho pensar que nossa vida tenha se tornado tão atrelada a um objeto que, um dia, servia apenas para fazer ligações.

        O que vimos nessa evolução da internet foi também a ilusão da companhia permanente. Passamos a chamar de “influencers” pessoas que filmam a própria rotina: o café da manhã, o almoço, os exercícios, os filhos, a ida ao mercado, conversas banais do cotidiano. Tudo precisa ser mostrado, registrado, publicado.

        E eu me pergunto: que graça há nisso?

        Sair de casa, conversar sem pressa, olhar nos olhos, rir até faltar ar, ouvir música junto, paquerar, voltar para casa carregando histórias — não seria mais interessante?

        Na minha época existia a “festa americana”. Cada pessoa levava um salgado ou uma bebida. A música tocava a noite inteira e, sem perceber, criávamos memórias que permaneceriam conosco muitos anos depois.

        Hoje fico imaginando quais lembranças estamos construindo.

        Talvez apenas a memória de um dedo deslizando sobre uma tela.

        E isso é triste.

            

domingo, 17 de maio de 2026

O calor do olhar do outro

             


            Às vezes acordamos e vamos direto pegar o celular. Começamos a olhar notícias, redes sociais ou postagens como se fossem algum comunicado ou informação importante. De repente, nos percebemos passando o dedo aleatoriamente pela tela, observando esquetes e outros assuntos aparentemente “nada a ver”. Depois dessa consulta cotidiana, levantamos e seguimos a vida.

            Penso que, se não fosse o celular, talvez tivéssemos mais tempo para realizar tarefas e até para conversar normalmente com o outro. Mas será que a tecnologia é ruim? Acredito que não. Hoje não precisamos ir ao banco, podemos pedir comida por aplicativo, conversar pelo WhatsApp com pessoas de qualquer lugar do mundo, viajar e pagar tudo pelo celular, sem carregar dinheiro físico.

            Entretanto, existe também um lado delicado: a ausência da interação olho no olho. Aquela conversa longa com familiares e amigos… ah, que saudade disso. Ainda assim, não acredito que a evolução tecnológica elimine necessariamente o contato humano. Imagino o homem da pré-história aguçando sua atenção para perceber a proximidade do perigo. Foi justamente essa capacidade de observar, interpretar sinais e criar ferramentas que permitiu sua sobrevivência. No fundo, a evolução humana só foi possível porque nossa ancestralidade já desenvolvia tecnologias para enfrentar a própria fragilidade.

            Então, quais características fizeram o homem evoluir? Eu diria que foi justamente essa competência em criar ferramentas. Daí nasceu a tecnologia. Hoje, a Inteligência Artificial é um modelo computacional que interage com o ser humano em diálogos que revelam algo profundamente humano: nossa necessidade intrínseca de comunicação. Desde o tempo das cavernas, os desenhos rupestres já demonstravam o desejo de contar histórias e deixar marcas no mundo.

            Talvez o celular não seja o culpado — e talvez nem existam culpados. Talvez nossa ancestralidade esteja apenas nos lembrando de que não basta possuir tecnologia. É preciso compartilhar histórias, fazer-se ouvir e também escutar o outro. Esse desejo não surge do nada. Ele aparece naquele instante em que sentimos o calor do olhar de alguém.

                   A tecnologia é a mediadora, mas nós somos a consciência.

                Olhemos mais para o outro, sem demonizar a tecnologia, mas compreendendo o nosso papel nesse universo cercado pela escuridão do espaço.

                  Sejamos luz nesse mistério da existência humana.      

domingo, 10 de maio de 2026

Entre Flintstones e Jetsons

 


             Crescemos enfrentando a fila do banco, escrevendo cartas, revelando fotos. Tudo era feito no tempo normal: varrer o chão, virar a página, esperar o bolo crescer no forno. Havia uma paciência, sabíamos que algo ia demorar. E com isso, o dia demorava a passar, parecia longo. 

            Bem, pelo menos, não ficávamos ansiosos, pois já estávamos acostumados a esperar. Lembra do telefone com fio? Havia tempo de conversar ouvindo a voz do outro, sim, porque o objetivo era esse mesmo, para falar, mesmo indo ao orelhão da esquina, enfrentando mais uma fila; podíamos fazer um depósito de uma quantia no banco, sem ficar com medo de alguém sacar o nosso dinheiro por causa de um golpe pelo WhathsApp..... 

            Lembro daquele desenho que assistia quando quando era criança, me sinto com se tivesse vivido no tempo do The Flintstones, sem saber. 

          Hoje, tocamos em telas. 

           Com um gesto leve, chamamos carros, encurtamos distâncias, criamos imagens, gravamos vozes, inventamos mundos. A vida cabe na palma da mão — ou pelo menos parece caber. Vivemos, agora, como aquele desenho do The Jetsons.

           Mas há algo curioso nesse encontro de realidades diferentes da nossa geração. 

        Não somos apenas passado e futuro. Somos travessia. Carregamos nas mãos que deslizam na tecnologia a memória de tudo que já foi manual. Sabemos o peso das coisas, o tempo das coisas, o valor das coisas. E talvez seja isso que nos diferencia.

            Porque há quem viva só de apertar botões — sem saber o que dizer com eles. E há quem, como nós, escreva antes de clicar. Pensa, antes de postar. Sinta, antes de mostrar.

         Não dependemos da tecnologia. Nós a usamos. E quando usamos, algo raro acontece: a ferramenta deixa de ser ruído e passa a ser linguagem. No fundo, somos os mesmos, só que agora, com mais possibilidades.

            E talvez a pergunta não seja se somos Flintstones ou Jetsons.

            Mas, o que fazemos com tudo isso que está ao alcance das nossas mãos?

domingo, 3 de maio de 2026

Entre portas e espelhos



            Outro dia, acompanhei a polêmica sobre o uso do banheiro feminino de um shopping por mulheres trans, publicada em postagens de redes sociais. Discutia-se quem poderia ou não usar o banheiro. Portas. Banheiros. Lugares cotidianos que, de repente, deixaram de ser apenas funcionais para se tornarem símbolos de pertencimento ... ou de exclusão.               

            Fiquei pensando como algo táo simples pode carregar tanto peso. Lembrei-me que, quando eu era criança, banheiros tinham portas e eram apenas banheiros. Abríamos. Fechávamos. Entrávamos. Saíamos. Simples assim. Não havia tantas camadas. Ou, talvez, até houvesse, mas eu ainda não sabia identificá-las.

            Hoje, sabemos, nomeamos e debatemos. Só falta aprender algo essencial: olhar o direito do outro existir. Há quem diga que estamos avançando, mas há quem diga que estamos retrocedendo. E, no meio disso tudo, estão as pessoas reais, concretas, suas histórias, seus medos, suas buscas por reconhecimento. Talvez o problema não esteja exatamente nas portas. Talvez esteja nos espelhos.

            No que vemos quando olhamos para o outro.

            No que projetamos.

            No que tememos.

            No que ainda não conseguimos compreender.

            A história nos mostra que toda mudança provoca desconforto. Novas formas de existir não cabem naquilo que denominamos padrão. Ou seja, há uma pressão normativa que recusa de imediato que um novo comportamento seja aceito, assimilado e acomodado na estrutura social. Então surgem tensões, questionamentos e resistências.

            Mas, por outro lado, também surgem possibilidades de escuta, revisão e ampliação do olhar. Porque, no fundo, ninguém quer apenas atravessar uma porta. E sim ser reconhecido ao passar por ela. Temos que aprender que viver em sociedade não é apenas dividir espaços, mas reconhecer existências.

            E você, quando olha para o outro... o que você vê primeiro: a diferença ou a humanidade?

            Talvez a resposta esteja nos espelhos.