Episódio 1: O que são migrações forçadas?
série baseada no livro Mulheres e Migrações forçadas no Rio de Janeiro: trajetórias dos corpos femininos, violência, xenofobia e resitências.
Quantas vezes atravessamos as fronteiras do mundo acreditando que somos cidadãos planetários. Não importa o país, o Hemisfério Norte ou Sul, o Ocidente ou Oriente. Somos seres humanos, abertos a conhecer novas culturas, aprender outros idiomas e descobrir diferentes maneiras de viver.
Lembro-me dos nossos ancestrais nômades. Guiavam-se pelo clima e pela disponibilidade de alimento. Onde havia caça e abrigo, ali permaneciam. No dia seguinte, retornavam a caminhada, porque sobreviver significava continuar em movimento. Era o seu modo de vida.
Lembro também de um trecho da canção Comida, dos Titãs:
"A gente não quer só comida..."
Afinal, a fome humana nunca foi apenas de pão. Temos fome de dignidade, de pertencimento, de afeto, de arte e de esperança.
Agora imagine ter de deixar o seu país não por escolha, mas porque já não há outra possibilidade. As panelas estão vazias. A violência ocupa as ruas. Guerras. Perseguição Política. A esperança parece perder as forças. O túnel escurece.
Hoje, milhões de pessoas também caminham em busca de um lugar seguro. Mas há uma diferença fundamental: elas não partiram porque esse era seu modo de vida. Partiram porque permanecer deixou de ser uma possibilidade.
Mesmo assim, algo permanece vivo: o desejo de continuar.
É esse desejo que se alimenta da própria dificuldade e faz alguém olhar para o horizonte em busca de um lugar onde ainda seja possível recomeçar.
Mas o mundo nem sempre é acolhedor.
Já não enfrentamos tribos em disputa por territórios, mas convivemos com outras fronteiras: o preconceito, a xenofobia, a indiferença e o medo do diferente.
Talvez possamos aprender, mais uma vez, com nossos ancestrais. Erguer os olhos para o céu. Contemplar as nuvens, as estrelas, a lua e o sol. Eles permanecem ali, cumprindo silenciosamente seu percurso, enquanto a Terra gira e a vida insiste em se transformar.
Migrar talvez seja uma das experiências mais antigas da humanidade.
Recomeçar, certamente, continua sendo uma das mais difíceis.
E, apesar de tudo, ninguém disse que seria fácil. Mas desistir nunca foi uma opção para quem ainda acredita que, depois da travessia, pode existir um novo lugar para chamar de lar.
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