terça-feira, 28 de julho de 2026

Ensaio literário: Por que assisti a "Betty, a Feia" três vezes?

Escrita pelo dramaturgo e roteirista colombiano Fernando Gaitán (1960–2019), Yo soy Betty, la fea estreou na Colômbia em 25 de outubro de 1999, pela RCN Televisión, permanecendo no ar até 8 de maio de 2001. Sua repercussão ultrapassou as fronteiras colombianas e transformou a obra em um fenômeno internacional, com exibição em mais de 180 países, dezenas de adaptações e reconhecimento do Guinness World Records como a telenovela mais adaptada e uma das mais bem-sucedidas da história da televisão.



Há poucos dias me fiz uma pergunta aparentemente banal: por que estou assistindo, pela terceira vez, a uma novela cujo enredo conheço praticamente de memória?

Assisti a Betty, a Feia pela primeira vez há mais de vinte anos. Eu estava por volta dos 40. A novela me marcou, embora naquele momento eu não soubesse explicar exatamente por quê. Três anos atrás, quando a encontrei disponível em streaming, assisti novamente a todos os capítulos. Agora, aos 63, estou terminando minha terceira incursão pela história de Beatriz Pinzón Solano e Armando Mendoza.

Não há suspense. Sei quem mente, quem trai, quem descobre, quem sofre. Sei quando Betty vai embora, quando retorna, quando Armando percebe que está apaixonado e como tudo termina.

Então, por que continuar assistindo?

Talvez porque algumas narrativas sobrevivam ao próprio enredo.

Não voltamos a elas para descobrir o que acontecerá. Voltamos porque alguma coisa permanece trabalhando dentro de nós. É o que acontece com certas obras literárias que atravessam épocas e permitem sucessivas leituras. O texto permanece; quem mudou foi o leitor.

Desta vez, portanto, comecei a assistir a Betty, a Feia de outro lugar. Menos interessada em saber o que aconteceria e mais atenta àquilo que a novela estava dizendo por baixo da história de amor.

E percebi que talvez nunca tenha sido, fundamentalmente, uma história sobre uma mulher feia que se torna bonita.

É uma história sobre o olhar.

Uma mulher feia dentro de uma fábrica de beleza

A escolha da Ecomoda como espaço principal da narrativa é extraordinária.

Betty não vai trabalhar em um banco, uma repartição pública ou uma empresa qualquer. Ela entra justamente em uma empresa de moda, um ambiente organizado em torno da produção da beleza.

Ali circulam modelos, estilistas, roupas, desfiles e corpos femininos submetidos a um padrão que a própria novela repete: 90–60–90.

É nesse universo que aparece Betty.

Óculos enormes, aparelho nos dentes, uma franja pouco favorecedora, cabelo preso, roupas antiquadas. Extremamente preparada e inteligente, mas absolutamente inadequada aos códigos estéticos daquele ambiente.

A família também participa da construção dessa Betty que chega à Ecomoda. 

Seu pai, Hermes Pinzón, é um homem profundamente amoroso, mas também profundamente patriarcal. Convencido de que protege a filha dos perigos do mundo, acaba moldando sua aparência e seu comportamento: as roupas discretas, o penteado sem vaidade, a vigilância constante e a ideia de que uma "moça de família" deve ser reservada. Ao seu lado, a mãe representa uma presença silenciosa e acolhedora. É ela quem escuta, consola e oferece afeto, embora raramente confronte a autoridade do marido. Betty não chega à empresa apenas com óculos, aparelho e roupas antiquadas; chega trazendo consigo uma educação sentimental construída dentro de casa.

E há uma ironia: a mulher que visualmente menos parece pertencer à Ecomoda torna-se indispensável para seu funcionamento.

Ao redor dela existe ainda o chamado “Quartel das Feias”, formado pelas secretárias da empresa. E aqui está uma das grandes provocações da novela: aquelas mulheres não são propriamente feias. São mulheres comuns.

Não têm necessariamente corpos de modelo, cabelos impecavelmente escovados ou roupas sofisticadas. Trabalham, pegam condução, têm problemas familiares, financeiros e amorosos. São corpos cotidianos colocados diante de corpos produzidos para representar um ideal.

De um lado, as modelos.

Do outro, o Quartel das Feias.

Umas representam a empresa; outras fazem a empresa funcionar.

E entre esses dois mundos circula Hugo Lombardi, o estilista que não se cansa de chamar Betty e suas companheiras de feias. Hugo funciona quase como um guardião das fronteiras estéticas da Ecomoda: ele determina quem pertence ao universo da beleza e quem deve permanecer fora dele.

Nesse sentido, “feia” deixa de ser apenas uma característica física. Torna-se uma categoria social.

Patrícia Fernández e a aparência como capital

Patrícia Fernández torna essa oposição ainda mais interessante.

Loira, magra, elegante, bem-vestida, amiga de Marcela, ela possui exatamente os signos de feminilidade valorizados naquele ambiente. E não se cansa de lembrar seus famosos seis semestres de estudos na San Marino.

Mas Patrícia vive sem dinheiro.

Sua aparência comunica uma posição que sua realidade econômica não consegue sustentar. Ela precisa continuamente preservar os signos externos de pertencimento a um universo de prestígio.

Patrícia e Betty constituem, assim, quase uma oposição perfeita.

Betty possui competência sem a aparência valorizada.

Patrícia possui a aparência valorizada sem demonstrar a mesma competência.

Uma parece não possuir nada e progressivamente revela tudo o que possui.

A outra parece possuir tudo e progressivamente revela sua fragilidade.

E Patrícia precisa trabalhar justamente ao lado do Quartel das Feias, grupo do qual tenta se distinguir continuamente. A guerra entre elas não produz apenas algumas das melhores situações cômicas da novela. Revela também uma disputa por reconhecimento e pertencimento.

Nicolás: o “Betty” masculino

Nicolás Mora, melhor amigo de Betty, introduz outra variação desse jogo.

Assim como Betty, ele recebe todos os signos necessários para ser considerado “feio”: óculos, penteado engomado, roupas pouco atraentes, comportamento socialmente desajeitado.

Mais uma vez, a novela parece demonstrar que a feiura precisa ser construída.

Óculos, cabelo, roupas, postura e gestos funcionam como signos que ensinam o espectador a classificar aquele personagem.

E então acontece o improvável encontro entre Nicolás e Patrícia.

A mulher que representa o padrão de beleza aproxima-se do homem considerado estranho e pouco atraente, especialmente quando ele passa a circular associado a dinheiro e poder.

Se o corpo funciona como uma espécie de capital para Patrícia, o dinheiro e o status passam a funcionar como capital para Nicolás.

A novela brinca o tempo inteiro com aquilo que faz alguém ser considerado desejável.

Armando sabia conquistar. Não sabia amar.

Talvez a transformação mais interessante da novela, entretanto, não seja inicialmente a de Betty.

É a de Armando.

No começo, Armando Mendoza é um homem inteiramente adaptado ao universo da Ecomoda. Bonito, mulherengo, cercado por modelos, acostumado a relações rápidas e à infidelidade, ele parece consumir imagens femininas.

Até que Betty entra em sua vida.

Mas havia um problema para o próprio roteiro: como um homem construído dessa maneira começaria espontaneamente a cortejar justamente a mulher que seu universo classificava como não desejável?

Provavelmente não começaria.

Era necessário um motivo.

E a novela cria um motivo terrível.

Pressionado pela disputa da presidência da Ecomoda, ameaçado por Daniel Valencia e envolvido numa sucessão de decisões empresariais equivocadas, Armando acaba dependendo de uma empresa criada em nome de Betty, a Terramoda.

Mario Calderón, seu amigo e cúmplice nas aventuras amorosas, então apresenta a solução: Armando deveria seduzir Betty para garantir seu controle sobre a situação.

É uma fraude.

E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem dramaticamente.

Armando não sabe como seduzir Betty. Ela está fora de todo o repertório feminino com o qual ele aprendeu a lidar.

Mario precisa praticamente escrever o papel que Armando deverá interpretar.

Bilhetes. Presentes. Palavras românticas. Gestos calculados.

Mario escreve; Armando representa; Betty acredita.

Até que algo sai completamente do controle.

Armando começa a sentir.

O falso sedutor acaba seduzido.

E um pequeno detalhe da novela passa a adquirir enorme importância: quando Armando realmente se apaixona, começa ele próprio a escrever.

Já não precisa que Mario produza sua linguagem amorosa.

No começo, Armando representa um homem apaixonado.

Depois, torna-se aquele homem.

Ele sabia conquistar mulheres. Descobre, com Betty, que não sabia amar.

E isso explica também a violência da descoberta posterior da fraude.

Betty passou a vida aprendendo que um homem como Armando jamais poderia desejar uma mulher como ela. Quando finalmente acredita que está sendo amada e descobre que houve um plano para seduzi-la, sua antiga crença parece brutalmente confirmada.

“Eu estava certa. Era impossível que ele me amasse.”

A tragédia está justamente no desencontro: quando Betty descobre que o amor começou como mentira, ele já havia se tornado verdade.

A mulher inteira

Talvez seja esse o ponto que mais me fascine na relação entre os dois.

Armando estava acostumado a olhar para mulheres bonitas. Mas olhar não significa necessariamente ver.

As modelos sucediam-se em sua vida. Havia desejo, conquista, sexo, infidelidade. Mulheres que, muitas vezes, funcionavam quase como imagens intercambiáveis.

Com Betty acontece outra coisa.

Ele conhece sua inteligência, sua lealdade, seus medos, sua fragilidade, seu humor, sua competência. Convive com ela.

É como se nas outras mulheres Armando encontrasse o simulacro e, em Betty, encontrasse a mulher inteira.

Ele começa a desejar justamente aquela mulher que seu próprio sistema de valores dizia que não deveria desejar.

Por isso a transformação física posterior de Betty não pode explicar o amor de Armando.

Ele se apaixona antes.

E esse “antes” muda tudo.

Quando Betty começa a olhar para Betty

Mas há outra transformação acontecendo.

Se Hermes Pinzón representa a voz da proteção e da tradição, Catalina Ángel desempenha um papel quase oposto. Ela lembra a fada madrinha dos contos de fadas, mas sem recorrer à magia. É quem oferece a Betty a oportunidade de reconstruir sua autoestima e de descobrir que a verdadeira transformação não consiste apenas em mudar a aparência, mas em reconhecer o próprio valor. Ao levá-la para Cartagena, Catalina não cria uma nova Betty; ajuda a revelar a mulher que sempre existiu sob as expectativas da família, da sociedade e da própria Ecomoda.

Betty também precisa aprender a olhar para si mesma.

Mesmo depois da mudança estética, ela não se transforma imediatamente numa mulher segura de seu poder de sedução. Há estranhamento. Há insegurança. Há momentos em que parece não compreender por que uma mulher deveria gastar tanto tempo com base, blush, batom, cabelo e roupas.

Ela aprende os códigos da beleza sem apagar completamente a mulher que viveu fora deles.

E talvez seja justamente por isso que uma das cenas finais da novela seja tão significativa.

Já na presidência da Ecomoda, Betty participa do lançamento de roupas destinadas não apenas aos corpos idealizados das modelos, mas às mulheres comuns.

E quem entra na passarela?

As mulheres do Quartel das Feias.

Inicialmente inseguras, elas não querem desfilar. Betty conversa com cada uma, trabalha sua confiança, encoraja-as.

Então entram.

Uma depois da outra.

As mulheres que durante toda a novela permaneceram nos bastidores ocupam finalmente o espaço máximo de visibilidade de uma empresa de moda: a passarela.

É uma cena emocionante porque fecha um círculo.

No início, a Ecomoda dizia às mulheres quais corpos poderiam representar a beleza.

No final, Betty começa a dizer à Ecomoda que existem outras mulheres.

A transformação deixa de ser apenas individual.

Por isso, sua transformação é mais profunda do que parece. 

Ela não rompe apenas com os padrões de beleza impostos pela Ecomoda. Rompe, de maneira delicada, com a imagem que aprendeu a construir de si mesma desde a infância. Entre o olhar protetor do pai, os padrões estéticos da empresa e o olhar amoroso que Armando aprende, lentamente, a lançar sobre ela, Betty realiza talvez a mais importante de todas as mudanças: aprende a olhar para si como uma mulher inteira, e não apenas como a "feia". É essa conquista interior que torna sua transformação tão convincente e faz da novela uma história que ultrapassa o simples conto de fadas da mulher que ficou bonita.

Betty não simplesmente consegue encontrar um lugar dentro da Ecomoda.

Ela faz a Ecomoda criar lugar para mulheres como ela.

Marcela talvez seja a personagem mais melancólica da novela. 

Bonita, elegante, rica, sócia da Ecomoda, ela representa tudo aquilo que socialmente costuma ser associado ao sucesso feminino. Ainda assim, vive aprisionada pela insegurança afetiva. Ao longo da narrativa, não perde sua beleza, mas, em muitos momentos, perde algo ainda mais precioso: a própria dignidade. Telefona, vigia, perdoa, suporta sucessivas traições, acreditando que o amor insistirá em permanecer. Curiosamente, a novela parece dizer que nem Betty nem Marcela são livres enquanto organizam suas vidas em torno do olhar de Armando. Uma precisa descobrir que merece ser amada; a outra precisa descobrir que amor nenhum justifica renunciar ao próprio respeito.

Por que volto?

Talvez agora eu consiga responder à pergunta que iniciou esta reflexão.

Por que assisti a Betty, a Feia três vezes?

Porque, por baixo da comédia, do romance, das brigas, dos ciúmes e das situações absurdas, existe uma narrativa sobre experiências profundamente humanas: ser visto e permanecer invisível; desejar e acreditar que não se tem o direito de ser desejado; parecer e ser; pertencer e ser excluído.

A Ecomoda funciona como uma pequena sociedade que classifica continuamente as pessoas: bonita ou feia, rica ou pobre, elegante ou cafona, chefe ou empregado, desejável ou indesejável.

Betty atravessa essas classificações.

Armando também.

Talvez por isso a história tenha sobrevivido tão bem ao tempo e atravessado tantas fronteiras culturais.

Quando assisti à novela pela primeira vez, por volta dos 40 anos, alguma coisa naquela narrativa me atingiu.

Não soube nomear.

Mais de vinte anos depois, assistindo pela terceira vez, percebo que a novela continua praticamente a mesma.

Quem mudou fui eu.

Hoje já não assisto apenas para saber se Betty e Armando ficarão juntos.

Observo os óculos, as roupas, o 90–60–90, o Quartel das Feias, as modelos atravessando os corredores, os insultos de Hugo Lombardi, a beleza de Patrícia Fernández, a estranheza de Nicolás Mora, os bilhetes de Mario Calderón e um Armando que começa fingindo um sentimento até descobrir que já não está fingindo.

Talvez seja isso que algumas narrativas conseguem fazer conosco.

Na primeira vez, queremos saber como terminam.

Na segunda, queremos sentir novamente.

Na terceira, finalmente começamos a perguntar:

por que essa história nunca terminou dentro de mim?


*Ao escrever esta história, Fernando Gaitán talvez não imaginasse que estava criando apenas uma novela. Criou uma narrativa capaz de atravessar culturas, gerações e diferentes formas de olhar o mundo. Mais de vinte anos depois, Betty, a Feia continua nos convidando a perguntar quem somos quando deixamos de ser definidos apenas pela aparência.

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