domingo, 17 de maio de 2026

O calor do olhar do outro

             


            Às vezes acordamos e vamos direto pegar o celular. Começamos a olhar notícias, redes sociais ou postagens como se fossem algum comunicado ou informação importante. De repente, nos percebemos passando o dedo aleatoriamente pela tela, observando esquetes e outros assuntos aparentemente “nada a ver”. Depois dessa consulta cotidiana, levantamos e seguimos a vida.

            Penso que, se não fosse o celular, talvez tivéssemos mais tempo para realizar tarefas e até para conversar normalmente com o outro. Mas será que a tecnologia é ruim? Acredito que não. Hoje não precisamos ir ao banco, podemos pedir comida por aplicativo, conversar pelo WhatsApp com pessoas de qualquer lugar do mundo, viajar e pagar tudo pelo celular, sem carregar dinheiro físico.

            Entretanto, existe também um lado delicado: a ausência da interação olho no olho. Aquela conversa longa com familiares e amigos… ah, que saudade disso. Ainda assim, não acredito que a evolução tecnológica elimine necessariamente o contato humano. Imagino o homem da pré-história aguçando sua atenção para perceber a proximidade do perigo. Foi justamente essa capacidade de observar, interpretar sinais e criar ferramentas que permitiu sua sobrevivência. No fundo, a evolução humana só foi possível porque nossa ancestralidade já desenvolvia tecnologias para enfrentar a própria fragilidade.

            Então, quais características fizeram o homem evoluir? Eu diria que foi justamente essa competência em criar ferramentas. Daí nasceu a tecnologia. Hoje, a Inteligência Artificial é um modelo computacional que interage com o ser humano em diálogos que revelam algo profundamente humano: nossa necessidade intrínseca de comunicação. Desde o tempo das cavernas, os desenhos rupestres já demonstravam o desejo de contar histórias e deixar marcas no mundo.

            Talvez o celular não seja o culpado — e talvez nem existam culpados. Talvez nossa ancestralidade esteja apenas nos lembrando de que não basta possuir tecnologia. É preciso compartilhar histórias, fazer-se ouvir e também escutar o outro. Esse desejo não surge do nada. Ele aparece naquele instante em que sentimos o calor do olhar de alguém.

                   A tecnologia é a mediadora, mas nós somos a consciência.

                Olhemos mais para o outro, sem demonizar a tecnologia, mas compreendendo o nosso papel nesse universo cercado pela escuridão do espaço.

                  Sejamos luz nesse mistério da existência humana.      

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