domingo, 24 de maio de 2026

Como nasceu a internet?

          


        No ônibus, voltando do trabalho, observei que ninguém conversava. Cada pessoa estava mergulhada na luz do próprio celular. Fiquei pensando em como a internet começou. Surgiu como um espaço descentralizado, voltado para bases militares, priorizando uma comunicação rápida e prática. Lembro quando comecei a trabalhar na burocracia administrativa e fiquei entusiasmada com a praticidade daquele novo universo. Era 1995. Não fiz curso algum. Seguia tutoriais, apertava teclas, errava, voltava e descobria, aos poucos, as funcionalidades da internet.

        No início, ela era apenas ferramenta de trabalho. Aos poucos, porém, passou a ocupar outros espaços da vida. Surgiram as redes sociais e começamos, sem perceber, a ficar cada vez mais presos às telas. Já não se tratava apenas de postar fotografias de aniversário ou conversar com amigos e parentes. Passamos a viver um pouco menos a própria vida para observar a vida dentro da tela.

        E, nesse movimento silencioso, fomos nos afastando do que existe de mais genuíno: a convivência com o outro. Mais do que pesquisadores e especialistas, nós mesmos percebemos isso no cotidiano. Você sabe quando sua mulher está com um olhar diferente? Quando o marido silencia mais do que o normal? Quando o filho parece distante? Talvez não. Mas certamente sabemos quando a bateria do celular está acabando.

        Hoje, às vezes, é mais fácil conferir se o aparelho está na bolsa do que verificar se levamos os documentos.

        Já vi pessoas se atrasarem para compromissos importantes porque esqueceram o celular carregando em casa. Mesmo sem depender diretamente dele para trabalhar, voltam para buscá-lo, como se uma parte da própria existência tivesse ficado para trás. É estranho pensar que nossa vida tenha se tornado tão atrelada a um objeto que, um dia, servia apenas para fazer ligações.

        O que vimos nessa evolução da internet foi também a ilusão da companhia permanente. Passamos a chamar de “influencers” pessoas que filmam a própria rotina: o café da manhã, o almoço, os exercícios, os filhos, a ida ao mercado, conversas banais do cotidiano. Tudo precisa ser mostrado, registrado, publicado.

        E eu me pergunto: que graça há nisso?

        Sair de casa, conversar sem pressa, olhar nos olhos, rir até faltar ar, ouvir música junto, paquerar, voltar para casa carregando histórias — não seria mais interessante?

        Na minha época existia a “festa americana”. Cada pessoa levava um salgado ou uma bebida. A música tocava a noite inteira e, sem perceber, criávamos memórias que permaneceriam conosco muitos anos depois.

        Hoje fico imaginando quais lembranças estamos construindo.

        Talvez apenas a memória de um dedo deslizando sobre uma tela.

        E isso é triste.

            

Nenhum comentário: