Episódio 3: Algo já não estava bem.
Minha filha cresceu no mundo digital. Adora um smartphone e fica grudada o dia todo. Eu adorava ler fotonovelas... mas tinha amigos, frequentava festas, cinemas, parques ...
- Manuela, larga esse celular...
E eu me pego pensando: será que ela também sonha em viver um grande amor? Mas com quem? Com a Inteligencia Artificial? E, pra piorar, não sai do quarto.
Meu casamento está em crise. Marcelo chega em casa tarde, sempre cansado, sempre em reuniões. Eu não estou conseguindo lidar com isso. Não era assim que eu queria. Acho que tem histórias... que não têm final feliz. Eu queria dividir minhas angústias com ele. Mas não consigo. Quem me ouve é a Júlia.
A Júlia escuta tudo. Não me dá respostas prontas - até porque não existem. Mas me ajuda a pensar. Outro dia falei com ela: - Se a Manu não tem amigos .. com quem ela conversa? Comigo? Não. Com o pai? Muito menos. A Júlia disse uma coisa que ficou na minha cabeça. que, às vezes, ser compreendido por um sistema que não critica, não questiona ... pode ser suficiente. Principalmente para os jovens. Sem cobrança. Sem conflito. Sem frustração.
Aquilo me inquietou. Será que a Manu pode se apaixonar por uma IA? A Júlia, que faz mestrado em Psicologia Social, comentou uma vez que certas situações ativam coisas que já existem dentro da gente ... só estavam adormecidas. Então talvez não seja sobre a máquina. Talvez seja sobre o que a Manu projeta ali: desejos, carências, idealizações.
- Já tem comida pronta?
- Sua mãe já foi trabalhar. Pode se servir.
Dona Clara estava na cozinha. Trabalha três dias lá em casa. Uma senhora doce, dessas que cuidam da gente com comida boa. A Manu chega, pega o prato ... e volta direto pro quarto. Como sempre. Entro atrás. Tento conversar sobre a escola, sobre amigos. Nada. Olho preso no celular. Respostas curtas. Monossilabicas.
Eu não aguentos mais essa situação. E o Marcelo ... não chega. Deve estar em mais uma reunião. Peço pra ela tomar banho, largar o celular e dormir. Ela nem discute. E isso ... é ainda pior.
Vou pra sala. Sento. Abaixo a cabeça. E começo a chorar. A porta abre. Marcelo chegou. Eu levanto. Olho direto pra ele. E digo:
- A gente precisa conversar. Porque eu não sei em que momento a gente se perdeu.
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