terça-feira, 15 de junho de 2021



Palavras contam histórias 

 



A construção do sentido II

        Ao definir o ato de ler como algo além da decodificação de palavras, a minha intenção foi resgatar o poder do leitor na construção do sentido do texto.
        A leitura ativa vivências, valores, espaços; o sentido representa a história de vida do indivíduo. Daí decorre a pluralidade de leituras de um mesmo texto. Essas possibilidades estão previstas nas entrelinhas do texto. Escrevemos porque desejamos ser lidos e marcar nosso lugar no mundo; e lemos porque somos obrigados ou por prazer ou para informação. De uma forma ou de outra, ler faz parte da nossa ancestralidade. 
        No conto O céu azul, tanto leitores de outros países, como do Brasil, da região Sudeste, do Rio de Janeiro, da Zona Sul, da Periferia, da Comunidade, terão leituras diferentes, de acordo com suas vivencias. Porém, todos entenderão a questão da carência, da violência, da educação e a escolha de algumas palavras, eis o sentimento humano ativado.
        É o sentimento humano que toca o sentido de cada um, as mazelas da vida cotidiana, por isso os clássicos são lidos e relidos a todo momento, por cada geração, filmes são produzidos e demais atividades culturais.
        O brilho do texto está presente quando sua luz ofusca e tira esse leitor da caixinha e ele transcende da sua realidade para um mundo de encontros e desencontros. Como a metáfora do mito da caverna de Platão, que percebe que a sombra refletida na parede da caverna nada mais é do que o reflexo de um outro mundo, o mundo real.
        


terça-feira, 8 de junho de 2021


Conto O céu azul - a construção do sentido

        

        Ler vai além da decodificação das palavras. Só podemos considerar que o texto foi lido quando o leitor interage com o mesmo, há uma troca de ideias entre o autor e seu interlocutor. Através das palavras escolhidas, dos personagens, do espaço, das ações, do enredo, tudo faz parte do percurso para o entendimento do texto.
        No caso do conto O céu azul, sobre a professora Cristina e seu aluno Gabriel, narrativa ambientada na cidade do Rio de Janeiro, especificamente numa comunidade carente e dominada pelo tráfico de drogas, a escolha do título não foi aleatória, serviu para contrastar com o final trágico.
        Esse contraste percorre todo o texto da narrativa, representando um conflito a ser resolvido pelo leitor. Nessa busca de chegar à descoberta do conflito, vai trazendo elementos de composição da  rotina das personagens. O texto dialoga com a poesia de Vinícius de Moraes, a intertextualidade, quando faz uma ironia entre as casas, a do poeta e a do Gabriel .
        Ao apresentar a cena final da visita da professora Cristina à casa do seu aluno, modifica-se a abordagem do tempo, já não há o céu azul, a claridade.
        O contexto inicia poderia orientar para um texto que falasse mais sobre questões educacionais dentro do muro da escola, com professores, alunos e funcionários, sistema de ensino, gestão, verbas, governo, etc. Porém, de acordo com as palavras escolhidas, o sentido das frases e a relação das mesmas com outras frases do texto, o leitor foi sendo conduzido a enveredar por outros caminhos diferentes que somente a inferência da leitura do primeiro parágrafo poderia expressar.
       Ler é exatamente isso, descobrir pistas nesses caminhos desconhecidos, mas ao mesmo tempo conhecidos, das palavras e ir decifrando o enigma, como já dizia Drummond "Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra./E te pergunta, sem interesse pela resposta,/Pobre ou terrível que lhe deres:/-Trouxeste a chave?" 
        O contraste entre dia ensolarado e a chuva no final do texto significa a mudança de vida das personagens. Nesse momento, não há poesia, não há alegria, sonhos, esperanças, era como se a realidade de sofrimento, perdas, sacrifícios, violência viesse à tona, portanto, não caberia mais o céu azul. 
        A casa da poesia de Vinícius de Moraes é para celebrar a construção de uma casa. No conto em tela é uma casa que representa a violência dentro de uma comunidade. Bem diferente do esmero da casa do poeta, era perfurada e um desses tiros levou a avó do Gabriel, não adiantando ter paredes, pois não protegeram ninguém.
                         

terça-feira, 1 de junho de 2021

 O céu azul

Era um dia ensolarado,  nenhuma nuvem, o céu estava azulzinho. Cristina acordou cedo, tomou  café e foi para mais um dia de aula no Rio de Janeiro. Ao longo do caminho, pensava em como tornar o conteúdo mais interessante e assim facilitar a aprendizagem.

Seus alunos viviam dispersos. A professora, irritada. Toda hora interrompia o andamento da aula e conversava - se é que podemos falar em conversa - com os alunos, os quais ficavam ainda mais dispersos - sim, e felizes porque conseguiram abalar a mestra. E assim seguia mais um dia de trabalho.

Ao término da aula, saindo da escola, tropeçou numa calçada com obstáculos e caiu. Logo apareceu um aluno, o Gabriel, que a ajudou a se levantar. Agradecida e elogiando a sua atitude, percebeu um olhar triste no estudante, como nunca vira antes, pois ele era um menino sorridente, alegre. 

Gabriel apresentava dificuldades na realização das atividades escolares, mas era um ótimo contador de histórias, apesar de não saber registrá-las. Vivia num mundo paralelo. Qual seria o motivo da tristeza? - pensava Cristina. Foi para casa refletindo sobre esse dia. 

O dia continuava lindo, uma luz guiava o pensamento de Cristina. De repente, resolveu retornar à escola e pegar o endereço do Gabriel. Assim o fez, indagaram qual seria o motivo da solicitação, o que não foi respondido.

Gabriel morava numa casa não muito engraçada, que tinha teto, chão e parede perfurada, iluminada pela luz do sol que entrava pelos furos produzidos pelos constantes tiroteios. Vivia com sua avó Geralda, uma velhinha muito doente. Ele olhou assustado para a professora e perguntou o que ela estaria fazendo ali, se não teria medo de entrar na comunidade.

Cristina tentava responder e falar de onde viria sua coragem. Mas, de repente, tudo parecia não fazer sentido. Como explicar a vida nesse dia ensolarado, com o céu azul. Para Cristina, acordar, estudar, contemplar o céu, diante de tanta carência, não faria sentido mesmo.

Será esse o motivo do olhar triste? A avó doente? - mais uma vez Cristina mergulhava em seu pensamento. Conversou com o Gabriel sobre a escola, suas notas, demonstrando querer ajudá-lo, sobretudo em agradecimento à atitude daquele dia. Cristina achou melhor não comentar sobre o olhar triste que gritava em seu rosto.

Porém, Gabriel era um psicólogo formado pela vida, sabia que a professora observara algo em seu rosto que a motivou a procurar por ele. Ao olhar profundamente Cristina, o aluno soluçou e chorou copiosamente. Sua avó tinha uma bala no corpo e não teria como mexer, estaria aguardando a qualquer momento a sua partida.

Cristina ficou atordoada.

De repente o dia escureceu, o azul sumiu, começou a chover.

E a avó do Gabriel faleceu.


domingo, 30 de maio de 2021

 O retorno II: agora um blog sob outra perspectiva 


Olá pessoal, tudo bem?

Estou retomando mais uma vez a escrita diária do meu blog.

Essas pausas ocorreram devido a problemas pessoais, período de pandemia, ainda em curso, e inquietações despertadas até mesmo por causa da pandemia sobre como utilizar essa ferramenta para conversar com um público de professores e comunidade em geral.

Escrever me faz muito bem, conversar com vocês sempre é um prazer inenarrável. Aliás, espero que estejam atravessando bem por esse período, na medida do possível.

Quem estava acompanhando as postagens anteriores vai perceber alteração não só do título blog mas também conteúdo . A proposta agora é focar mais na leitura, escrita e narrativas, daí o nome "o brilho do texto".

Essa mudança se justifica pela demanda observada na sociedade contemporânea com o acesso da tecnologia da informação. Como formar bons leitores diante do aparato digital que está interferindo na formação de novos leitores?

Independentemente dos conteúdos e professores das diversas disciplinas, como os estudantes imersos nesse universo da leitura podem avançar para uma fase de leitor crítico e reflexivo?

Contribuir com reflexões, dicas, entrevistas, informações é a proposta do blog. Para tanto, convido a todos vocês embarcarem nesse universo para talvez não encontrar as respostas, mas descobrir novas perguntas.

Deixe seu comentário.

Mais uma vez, com é bom estar de volta!



sábado, 14 de setembro de 2019

Leitura, Sonho e Bienal 2019

Conforme escrito  no texto anterior do blog, "Linguagem e Cérebro Emocional", a origem da humanidade poderia ser estudada ou conhecida pelo estudo das narrativas literárias. Isso porque entendemos que o texto pode representar as práticas sociais da época. Nessa relação da ficção com a realidade há uma representação de mundo.

Nesse sentido, damos continuidade a esse tema abordando sobre o ato de ler. De acordo com Ezequiel Theodoro da Silva¹, as experiências conquistadas por meio da leitura são fontes de energia que instigam a descoberta, elaboração e difusão de conhecimento.

A variedade e disponibilidade de livros à venda no mercado editorial permitem que o leitor escolha e selecione o que desejar ler. A sua liberdade, a aquisição de novas informações e a consequente expansão de horizontes vão se tornar incentivadoras de diálogos frequentes. Tal prática levará o leitor a participar de forma crítica e ativa da comunicação.

Para tanto, precisamos continuar sonhando com um mundo melhor, sem fiscalização de livros, numa sociedade mais tolerante. Sidarta Ribeiro², neurocientista e professor da UFRN, no seu livro recém-lançado "O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho", relata que uma das funções mais frequentes atribuídas ao sonho é a de oráculo capaz de desvendar o futuro, determinar presságios, ler a sorte e adivinhar os desígnios dos deuses.

Ainda de acordo com Sidarta Ribeiro, os sonhos eram levados a sério na Grécia antiga, situando-se no centro da medicina e da política. Na mitologia grega, Hipnos era o deus do sono, irmão gêmeo de Tânatos, deus da morte, filhos de Nix, noite. O reino de Morfeu seria o sonho.

Os antigos se deixavam guiar pelos sonhos, porque poderiam ser proféticos.

Ariano Suassuna tem uma passagem de texto que fala "O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado".

Então colegas, vamos sonhar que é possível um mundo que respeite a diversidade.

Até a próxima postagem.



1- Silva, Ezequiel Theodoro [da]. O ato de ler: fundamentos psicológicos para uma nova Pedagogia da Leitura. 11 ed. São Paulo: Cortez, 2011.

2- Ribeiro, Sidarta. O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Linguagem e cérebro emocional

Roger Chartier, pesquisador e professor francês, asseverou que a língua é uma prática social. Seria possível estudar a história da humanidade pela evolução do texto escrito devido às significações sociais do texto de acordo com a cultura dos grupos.

A leitura é uma elaboração de significados construídos pelo leitor. Para Chartier, o sentido do texto escrito pode ser completamente diferente entre leitor e escritor. Devido à cultura que cada leitor está inserido e de acordo com sua experiência, idade, vivência, o significado nem sempre vai coincidir durante a apropriação do texto. Uma situação será lembrada pela sua carga de significação, não como uma percepção de elementos, mas como uma significação valorizada, considerada importante.


Desde a Bíblia, de Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis, Pedro Calderón de la Barca, Antoine de Saint-Exupéry, José de Alencar e outros escritores cujas obras viraram clássicos, o texto literário é um recorte de uma época. E, como tal, trata das questões universais do ser humano, ultrapassando gerações, independente da subjetividade, do seu caráter verossímil e da imaginação.

A representação de mundo é a característica fundamental que propicia o diálogo do ficcional com a realidade. Nesse diálogo, fatos guardados na memória podem vir à tona porque mexeram com o lado emocional. No resgate da história, muitas questões poderão ser rediscutidas ou reelaboradas. As emoções fazem o indivíduo pensar em coisas adormecidas no passado. A escola amplia essa experiência na linguagem escrita.


A literatura fornece conteúdos históricos, sociológicos, possibilitando conhecer diversas histórias. Para tanto, nossas conexões neurais, por meio das sinapses, vão acionando áreas responsáveis pela interpretação de todos esses estímulos para construção de nossas memórias.

Nosso cérebro aciona a compreensão por meio de vastas áreas dos lobos temporal, occipital e parietal e sua produção, em grande parte, ao lobo frontal. A produção da linguagem requer a utilização de muitas áreas corticais para assegurar que o sentido das palavras seja adequado e que elas sejam bem pronunciadas e colocadas corretamente na frase.

Sendo assim, ler uma simples história, nos faz viajar por diversas culturas, estimula os lobos cerebrais e ainda ampliamos e reelaboramos nossa memória.

Até o próximo texto colegas.



KREBS, Claudia; WEINBERG, Joanne; AKESSON, Elizabeth. Neurociências Ilustrada. Porto Alegre: ArtMed, 2013.

Migrações

                 Episódio 6 - Possibilidades