domingo, 22 de março de 2026

As pernas que falam sobre o tempo


Já pensaram em quantas histórias passaram pelos movimentos das nossas pernas? Se não fossem elas, o que diríamos dos lugares visitados? Há pernas que carregam em suas silhuetas os caminhos percorridos - cada marca do tempo guarda um período intenso da vida. 

Era um caminhar tranquilo, um dançar festivo. Quase como um mapa de uma vida que, na época, a gente não pensava muito - apenas vivia. Sem limites. Qualquer ritmo servia: samba, bolero, tango, rock, axé, pagode. E nas festas de “flashback” ... ah, ali elas reinavam. Passinhos coreografados, risos soltos, o corpo obedecendo à música sem esforço. 

No futebol, são elas que fazem nascer aquele drible bonito que arranca gritos e alegria dos torcedores. Músculos, articulações, movimento. Somos livres quando ela nos leva para lá e para cá. Com o tempo, porém, a marcha muda. Fica mais lenta, às vezes cansada - mas ainda segue.  

E até nas lendas elas aparecem. Em Recife, existe a famosa história da Perna Cabeluda, que assustava moradores e acabou se tornando símbolo dos tempos duros da nossa história. 

Varizes? Joelho? Artrose? As marcas que vemos hoje são, muitas vezes, lembranças silenciosas de uma vida que se moveu. O tempo pode ser implacável, mas a vontade de continuar, não.  

Pernas grossas, magras, fortes, delicadas, rápidas ou vagarosas. Algumas saltitam, outras, precisam de apoio para cada passo. Mas nenhuma esquece o que é seguir. São elas que empurram o pedal da bicicleta, que sustentam o corpo na subida, que nos levam até um pôr do sol qualquer – desses que fazem tudo parecer ter valido a pena.  

Como não amar essas pernas cansadas e cheias de marcas? Elas só confirmam que o valor das coisas está na simplicidade de continuar, mesmo quando o corpo pede pausa. Às vezes, tudo o que precisamos é dar um passo, depois outro, e mais um. Seguir caminhando, dançando, pulando. Lembre-se: no fundo, viver nunca foi uma escolha sobre permanecer intacto, sem as marcas da passagem do tempo. 

Vamos juntos? 

Som na caixa, DJ. 

domingo, 15 de março de 2026

Tudo aconteceu antes do meio-dia

 


 

Sexta-feira, 10:50 da manhã. Tempo nublado, turma esvaziada, piscina aquecida. Começa a aula de hidroginástica. Logo percebi um burburinho correndo prestes a se tornar um tsunami. A maioria ali pertence à geração das mulheres 60+, aquelas que às vezes movimentam mais as notícias do que o corpo. O professor, já percebendo o clima, fala brincando “eu nem leio as postagens do grupo da família constantes do WhatsApp. Estou lá, mas não acesso, não quero saber de nada. 

Eu tentei prosseguir concentrada, mas a curiosidade é um músculo que também necessita ser exercitado. Aproximo-me de uma colega e pergunto o que estaria acontecendo. Ela conta, entre risos e indignação, que um senhor resolveu postar mensagens “pornográficas” no grupo da turma de hidro, formado basicamente por senhoras.  

Não consegui evitar o riso. Pensei comigo “a sexta-feira começou animada. Vai ver o senhor quis apenas descontrair o grupo. Afinal falar de sexo não seria um convite inocente ao prazer? Ou quem sabe, a psicologia explica, um gesto de rebeldia tardia contra o tédio? O professor levou na esportiva, porque tem hora que não temos que levar a vida a sério. 

Saí da academia e fui almoçar no shopping próximo. Hora da comida self-service. Filas, bandejas, pessoas escolhendo cardápios que misturam pratos e preços - um verdadeiro mosaico gastronômico. Muitos jovens passavam, provavelmente saindo da escola. Conversas rápidas, risadas soltas, mochilas nas cadeiras.  

Numa mesa próxima, vazia, uma senhora conversa ao telefone. Não comeu nada, não bebeu nada. Mas falou demoradamente com alguém do outro lado da linha sobre o seu ex-marido. Dizia que agora tinha que aprender a viver sozinha, falava com intensidade, com emoção. Eu acompanhava involuntariamente a narrativa inteira. Me parecia triste mas ao mesmo tempo esperançosa, feliz. Estava ali alimentando-se de outra coisa: desabafo. Às vezes a fome não é de comida. 

Quando eu já terminava meu almoço, uma menina - devia ter uns 12 anos - levantou de repente e anunciou com voz bem alta para toda a praça da alimentação: “gente, minha amiga faz aniversário hoje! Vamos cantar parabéns pra ela?” Por um instante houve silêncio. Depois, como se um fio invisível ligasse todos ali, começamos a cantar e bater palmas para a aniversariante. Foi lindo! 

Talvez porque a espontaneidade esteja se tornando rara nesse tempo de redes sociais, onde cada gesto precisa caber numa tela e cada emoção vira postagem, saí do shopping pensando que essa sexta-feira foi generosa. A vida fluindo, sem roteiro. 

 

 

domingo, 8 de março de 2026

A juventude é uma incógnita: decifra-me.

 


A adolescência é uma fase complicada, dois lados brigando dentro do mesmo corpo. É a tal transição: nem criança, nem adulto. Ainda ontem era tão bom levar nas festinhas de aniversário dos coleguinhas, de repente, mudanças ocorrem - vem aquele “esticão”, a menina-moça vê seu corpo ganhar contornos, sua silhueta, um bordado de curvas formando um labirinto de perdas e ganhos. O menino-rapaz engrossa a voz que produz um som ecoando entre as paredes do quarto, talvez procurando a saída dessa fase. Muitos enigmas, poucas respostas. Aliás, nem sabemos o que perguntar durante o percurso. 

E como os adultos ficam? Tentam descobrir o valor de x, mas não é fácil quando o próprio x nem sabe quem é.  Alguém abriu um livro e surgiram potências e raízes que não se deixam decifrar, tudo está fora do compasso. Já viram o crescimento de uma árvore? Da terra nasce um tronco com raízes fixadas no solo, aparecem os galhos, as folhas, flores e frutos. No interior do fruto, a semente, responsável pela continuidade de uma nova árvore. Pois é, no caso do ser humano, os pais precisam ser iguais a essa árvore, ter um tronco forte e raízes profundas fincadas à terra para segurar as várias tempestades e cuidar do crescimento e do amadurecimento de um novo adulto. 

É difícil, ainda mais diante do perigo de se repetir ideias retrógradas na criação de meninos. Sobretudo quando se ensina o menino a olhar o corpo da menina como objeto de satisfação do próprio prazer. Como se a mãe da menina tivesse sempre que ter medo do que poderá acontecer com a sua filha, seja na escola, em festas ou ao se encontrar com o namorado. Parece que para a mulher não pode existir aquele contrato invisível de confiança, onde o namorado diz que “podemos nos encontrar, somente nós dois”. 

A parceria entre homens não envolve desconfiança, estão juntos para o que der e vier. Imagine um deles não cumprir o pacto, não seria atitude de homem, a norma permite esse jogo entre os iguais, a tribo autoriza a união para usufruir de um prazer coletivo. Ninguém espera o consentimento da mulher - ela é o seu banquete.  

O amadurecimento emocional exige compreender que ninguém é objeto descartável e que todo sim ou não precisa ser respeitado. O mundo não gira em torno de uma única tribo. Existem muitas, cada uma com suas crenças e seus códigos. Mas há um princípio que deveria ser universal e atravessar todas elas:  o respeito. 

 

Porque a juventude pode até ser uma incógnita. 

Mas o respeito nunca deveria ser. 

Migrações

                 Episódio 6 - Possibilidades