domingo, 15 de março de 2026

Tudo aconteceu antes do meio-dia

 


 

Sexta-feira, 10:50 da manhã. Tempo nublado, turma esvaziada, piscina aquecida. Começa a aula de hidroginástica. Logo percebi um burburinho correndo prestes a se tornar um tsunami. A maioria ali pertence à geração das mulheres 60+, aquelas que às vezes movimentam mais as notícias do que o corpo. O professor, já percebendo o clima, fala brincando “eu nem leio as postagens do grupo da família constantes do WhatsApp. Estou lá, mas não acesso, não quero saber de nada. 

Eu tentei prosseguir concentrada, mas a curiosidade é um músculo que também necessita ser exercitado. Aproximo-me de uma colega e pergunto o que estaria acontecendo. Ela conta, entre risos e indignação, que um senhor resolveu postar mensagens “pornográficas” no grupo da turma de hidro, formado basicamente por senhoras.  

Não consegui evitar o riso. Pensei comigo “a sexta-feira começou animada. Vai ver o senhor quis apenas descontrair o grupo. Afinal falar de sexo não seria um convite inocente ao prazer? Ou quem sabe, a psicologia explica, um gesto de rebeldia tardia contra o tédio? O professor levou na esportiva, porque tem hora que não temos que levar a vida a sério. 

Saí da academia e fui almoçar no shopping próximo. Hora da comida self-service. Filas, bandejas, pessoas escolhendo cardápios que misturam pratos e preços - um verdadeiro mosaico gastronômico. Muitos jovens passavam, provavelmente saindo da escola. Conversas rápidas, risadas soltas, mochilas nas cadeiras.  

Numa mesa próxima, vazia, uma senhora conversa ao telefone. Não comeu nada, não bebeu nada. Mas falou demoradamente com alguém do outro lado da linha sobre o seu ex-marido. Dizia que agora tinha que aprender a viver sozinha, falava com intensidade, com emoção. Eu acompanhava involuntariamente a narrativa inteira. Me parecia triste mas ao mesmo tempo esperançosa, feliz. Estava ali alimentando-se de outra coisa: desabafo. Às vezes a fome não é de comida. 

Quando eu já terminava meu almoço, uma menina - devia ter uns 12 anos - levantou de repente e anunciou com voz bem alta para toda a praça da alimentação: “gente, minha amiga faz aniversário hoje! Vamos cantar parabéns pra ela?” Por um instante houve silêncio. Depois, como se um fio invisível ligasse todos ali, começamos a cantar e bater palmas para a aniversariante. Foi lindo! 

Talvez porque a espontaneidade esteja se tornando rara nesse tempo de redes sociais, onde cada gesto precisa caber numa tela e cada emoção vira postagem, saí do shopping pensando que essa sexta-feira foi generosa. A vida fluindo, sem roteiro. 

 

 

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