O carnaval é
como se fosse um portal que se abre uma vez por ano para que a travessia seja
um encontro com suas diversas personas. Lojas vendendo as fantasias e cada um
escolhendo viver seu melhor personagem. A diferença entre as classes sociais se
dilui, todo mundo canta e dança coletivamente, atrás de suas máscaras. Lugares
enfeitados, bandas tocam marchinhas antigas, grupos fantasiados confraternizam
e desfilam pelas ruas embalando coreografias e assustando as criancinhas.
Um campeonato é
filmado e divulgado pelos canais de televisão, preparados para levar o
espetáculo do desfile aos lugares mais longínquos. Não, não é o futebol. São as
escolas de samba, que desenvolvem seus enredos, como se fossem uma obra de arte
pintada num quadro ganhando contornos de 3D. Nesse quadro a céu aberto, um
mundo se abre por meio da representação de fatos históricos que recebem uma
dose de um novo final.
Figuras
esquecidas, pouco valorizadas, desconhecidas, de repente criam alma e corpo.
Elas ocupam seus lugares na roda da vida, descobrimos um pouco do que a
história esqueceu de nos contar. Nunca é tarde para contemplarmos a beleza do
brilho daquela estrela que parecia pequena e distante. Atravessando a avenida,
o samba penetra no coração de cada componente, os passos, o balançar dos
braços, soam uma composição de união entre o agora e o eterno.
Quem não
estava desfilando ou assistindo nas arquibancadas e camarotes, estava
acompanhando de casa. Muitas pessoas organizavam um evento, com churrasco,
bebidas, rodas de samba, conversa. A televisão segue ligada à noite toda.
Ninguém deseja perder o momento do desfile de sua agremiação. Eram nomeados
organizadores, presidente, patrono, rainha de bateria, tudo cronometrado e
submetido à avaliação de uma equipe julgadora.
Nesses dias,
não tínhamos horários para fazer nada, tudo corria conforme a energia e vontade
de viver intensamente. Parecia que a escolha era paranão ver além das máscaras.
Deixar-se levar pelo brilho, o balançar das penas, o colorido de plumas e
paetês, indo num encontro de algo que não importa o que seja, apenas ir, sem
destino.
Mas, na
terça-feira, meia-noite, tudo acaba, necessário atravessar o portal e voltar.
Fantasias esquecidas nas esquinas, encostadas nos postes, adereços espalhados
pelas ruas, algumas pessoas caídas no chão, adormecidas, tristes, chorosas.
Acabou, na quarta-feira, a partir do meio-dia, a rotina
de todo dia. Tudo normal.
Um comentário:
Muito bom o texto, reflexão sobre como somos de fato, a vida depois do carnaval.
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