Quem já
conheceu um cãozinho que chega inesperadamente, ocupando primeiro um canto do
quintal a céu aberto, depois correndo pela areia da praia, entre ondas que se
movimentam num ritmo de sons e diversão, até que, sem percebermos, passa a
preencher os dias dos moradores? Basta um olhar trocado, olho no olho, para
entendermos o quanto de comunicação emocional existe nesse silêncio
compartilhado. E então, quando tudo parecia apenas continuidade, a cena se
rompe – como se a maré, de repente, recolhesse as pegadas que ainda estavam
frescas na areia.
Havia um clima
coletivo de cuidados com os amigos de quatro patas. Dividiam-se tarefas: quem
levaria comida, quem traria água, quem doaria uma casinha com cama para
proteger do sereno. Eram dias de atividade lúdica e os recursos eram simples -
a areia, o mar, o sol, as ondas. Corridas livres, escuta atenta ao barulho
ritmado da maré, corpos em movimento como num pequeno balé à beira-mar. E,
quando chovia, bastava contemplar o céu inteiramente coberto de nuvens, a água
caindo sem pressa, e o mar transformado em deserto cinza.
A natureza em
estado bruto. Sim - não os humanos. Um grupo de vizinhos numa convivência a céu
aberto, todos cuidando de um cachorro cujo dono havia partido. Foi adotado. Seu
nome era Orelha. Até que, tal como num conto de fadas, pessoas invadiram o
enredo e assumiram o papel de vilão, escurecendo a cena do nosso herói e
tingindo de sangue a sua história. Não houve fada madrinha, nem varinha mágica
capaz de interromper o desfecho.
Um ciclo se
encerrou. As pegadas desapareceram da areia. Um laço de ternura foi rompido. Nos
contos de fadas, o vilão costuma carregar no passado uma justificativa –
abandono, injustiça, desejo de poder. Mas, na história do Orelha, os jovens
vinham de famílias estruturadas, com poder, sobretudo financeiro, e agiram com
uma crueldade difícil de compreender, atacando um animal indefeso, que não oferecia
resistência.
Houve algo de
perturbador ali – como um ritual vazio, um prazer primitivo alimentado pelo
sofrimento do outro. Uma luz vermelha se acendeu. O que leva jovens, em idade
de aprender e desenvolver empatia, a escolher a violência?
Empatia não nasce
pronta. Precisa ser ensinada – em casa, na escola, nos espaços de convivência.
Colocar-se no lugar do outro, imaginar a dor, reconhecer limites – isso é parte
do processo de tornar-se humano. Vale lembrar o diálogo entre a raposa e o
Pequeno Príncipe, quando ela explica que cativar significa criar laços. O poder
perde o sentido quando não se aprende a cativar, ele precisa caminhar ao lado
da empatia, do reconhecimento da dignidade do outro, do respeito aos limites
que tornam possível a convivência.
Movimento "Palavra que fica", o que ficou em você?

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