domingo, 1 de março de 2026

Entre a lua e a sombra

 


Quem já conheceu um cãozinho que chega inesperadamente, ocupando primeiro um canto do quintal a céu aberto, depois correndo pela areia da praia, entre ondas que se movimentam num ritmo de sons e diversão, até que, sem percebermos, passa a preencher os dias dos moradores? Basta um olhar trocado, olho no olho, para entendermos o quanto de comunicação emocional existe nesse silêncio compartilhado. E então, quando tudo parecia apenas continuidade, a cena se rompe – como se a maré, de repente, recolhesse as pegadas que ainda estavam frescas na areia.

Havia um clima coletivo de cuidados com os amigos de quatro patas. Dividiam-se tarefas: quem levaria comida, quem traria água, quem doaria uma casinha com cama para proteger do sereno. Eram dias de atividade lúdica e os recursos eram simples - a areia, o mar, o sol, as ondas. Corridas livres, escuta atenta ao barulho ritmado da maré, corpos em movimento como num pequeno balé à beira-mar. E, quando chovia, bastava contemplar o céu inteiramente coberto de nuvens, a água caindo sem pressa, e o mar transformado em deserto cinza.

A natureza em estado bruto. Sim - não os humanos. Um grupo de vizinhos numa convivência a céu aberto, todos cuidando de um cachorro cujo dono havia partido. Foi adotado. Seu nome era Orelha. Até que, tal como num conto de fadas, pessoas invadiram o enredo e assumiram o papel de vilão, escurecendo a cena do nosso herói e tingindo de sangue a sua história. Não houve fada madrinha, nem varinha mágica capaz de interromper o desfecho.

Um ciclo se encerrou. As pegadas desapareceram da areia. Um laço de ternura foi rompido. Nos contos de fadas, o vilão costuma carregar no passado uma justificativa – abandono, injustiça, desejo de poder. Mas, na história do Orelha, os jovens vinham de famílias estruturadas, com poder, sobretudo financeiro, e agiram com uma crueldade difícil de compreender, atacando um animal indefeso, que não oferecia resistência.

Houve algo de perturbador ali – como um ritual vazio, um prazer primitivo alimentado pelo sofrimento do outro. Uma luz vermelha se acendeu. O que leva jovens, em idade de aprender e desenvolver empatia, a escolher a violência?

Empatia não nasce pronta. Precisa ser ensinada – em casa, na escola, nos espaços de convivência. Colocar-se no lugar do outro, imaginar a dor, reconhecer limites – isso é parte do processo de tornar-se humano. Vale lembrar o diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe, quando ela explica que cativar significa criar laços. O poder perde o sentido quando não se aprende a cativar, ele precisa caminhar ao lado da empatia, do reconhecimento da dignidade do outro, do respeito aos limites que tornam possível a convivência.



Movimento "Palavra que fica", o que ficou em você?

 



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